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A valorização da pecuária de leite

Agregar valor é alternativa para melhorar os lucros com a produção de leite

Um grande desafio do produtor de leite é não ficar no vermelho quando o preço da matéria-prima recua. Como a remuneração é reflexo do comportamento do mercado, qualquer queda no consumo ou recuo da agroindústria pode comprometer os lucros da atividade. Por isso, quem trabalha com pecuária de leite fica na torcida pela valorização da matéria-prima e pela estabilidade do preço pago ao produtor.

 

Para não se prejudicar em situações de crise, uma saída que ainda é pouco explorada pelo produtor brasileiro de leite é agregar valor ao seu próprio produto. Ou seja, ganhar mais com alternativas que podem ser adotadas dentro da porteira. Dois caminhos são recomendados para quem quer otimizar a atividade. O primeiro é investir em uma produção diferenciada, seja pela qualidade, seja pelo tipo de produto. E o segundo é investir na produção de derivados, como o queijo artesanal, que remunera até quatro vezes mais por litro do leite.

 

É hora de melhorar a qualidade

Melhorar a qualidade da produção também é agregar valor. O pecuarista brasileiro precisa buscar melhorias dentro da propriedade rural para ter um leite mais valorizado pelo mercado. Como a qualidade do leite não é avaliada visualmente, existem alguns indicadores que garantem se o produto é bom ou não.

 

De acordo com Alessandro de Sá Guimarães , pesquisador do grupo de saúde animal e qualidade do leite na Embrapa Gado de Leite, três pilares resumem as características do produto: condição higiênico-sanitária, composição e a presença de resíduos.

 

“Na atividade, a contagem de células somáticas (CCS) e a contagem total bacteriana (CTB) são fundamentais para que o produtor conheça a qualidade do seu produto”, diz Guimarães. De acordo com o pesquisador, um bom índice de CCS é de 400 mil células por mililitro e para o CTB são 100 mil células por mililitro. “Hoje em dia 50% dos produtores não se encaixam [no padrão de qualidade]”, diz Guimarães.

 

Pecuária de leite

O cenário é reflexo dos gargalos que a atividade enfrenta, principalmente em relação à mão-de-obra, que tem um custo elevado e necessita de capacitação. “A qualidade do leite no Brasil ainda não é boa”, diz Guimarães. “Existem produtores que trabalham de forma eficiente, mas o Brasil tem produtores que não estão preparados.”

 

Para o pesquisador da Embrapa Gado de Leite, a discrepância que existe entre as propriedades que se dedicam a produzir leite é um entrave para a evolução da atividade. “Nós temos 5% dos produtores que produzem 75% do leite no Brasil. Ainda existe uma grande parte de produtores produzindo pouco.”

 

Enquanto uma vaca brasileira produz, em média, 5 litros por dia, na Argentina esse volume chega a 18, na Holanda a 25 e nos Estados Unidos são 33 litros por vaca dia. Resultados como esse chamam a atenção para a necessidade de aperfeiçoar a produção no País.

 

Exemplo de qualidade

O leite Xandô, produzido na Fazenda Colorado, em Araras (SP), é referência quando o assunto é leite brasileiro de qualidade. São 24 milhões de litros produzidos por ano. Apesar das mais de três décadas de experiência, Antônio Carlos Sobreira, diretor da fazenda, conta que o diferencial deles está em dois fatores essenciais, a capacitação dos funcionários e o bem-estar dos animais.

 

“Cada um tem que se adequar a sua realidade, mas um trabalho bem feito, o treinamento e o cuidado com as pessoas, isso cabe em qualquer propriedade e faz a diferença”, diz Sobreira.

 

Fazenda Colorado

O rebanho tem, aproximadamente, 4.100 cabeças de gado holandês e a produtividade média está bem acima da média brasileira, são 39,5 litros por vaca por dia. “Os nosso animais em lactação ficam em um galpão climatizado, a temperatura não passa de 25 graus e após a ordenha eles têm uma cama de areia que é confortável, com manutenção diária, são coisas que proporcionam conforto”, diz o diretor.

 

Para Sobreira, a pecuária leiteira no Brasil ainda tem muito que evoluir e o produtor precisa investir em gestão para melhorar os resultados. “Às vezes a pessoas não tem condição financeira, mas são coisas que não custam muito e podem complementar os lucros”, explica o diretor da Fazenda Colorado. “Tem que ter planejamento, as fases boas tem que ser aproveitadas, mas tem que pensar que vai ter fase ruim, a cadeia do leite é cíclica.”

 

As dicas dele para quem quer agregar valor ao produto são investir em produção de qualidade, contratos a longo prazo, produzir derivados como o queijo e procurar ter uma boa aceitação no mercado. “Uma preocupação grande que a gente tem é levar em consideração o custo. Para a gente cada centavo é muito dinheiro, trabalhar com custo é imprescindível.”

 

As vantagens do derivado

Já para quem quer ir além da produção de leite, existem outras formas de agregar valor. Um exemplo inspirador é o da Marly Leite, produtora que comanda os negócios do queijo Senzala, produzido na microrregião de Araxá, em Minas Gerais. Para produzir uma peça de queijo de um quilo, ela conta que são necessários nove litro de leites. Depois, o produto chega a mesa do consumidor custando a partir de R$ 35.

 

Em 2017, o queijo mineiro foi premiado no concurso mundial de queijos na França e chamou a atenção para a qualidade do queijo artesanal produzido no Brasil. Além disso, a conquista serve de estímulo para os pecuaristas que sonham com a possiblidade de precificar o seu produto.

 

Negócio familiar

Os avós de Marly começaram a produzir leite em 1954, mas ela só começou a se dedicar ao ofício há 25 anos. Atualmente, são 80 vacas, com produtividade de 8 litros podia e, aproximadamente, 1.500 queijos por mês. A principal característica do rebanho é a rusticidade. “Não tenho nenhuma raça pura e a alimentação dos animais é no pasto e a gente complementa com soja e milho”, conta a produtora.

 

Marly não é daquelas que tem medo da concorrência. Para ela, quanto mais gente na atividade melhor. “Eu recomendo e luto com unhas e dentes para que o produtor manipule o seu próprio produto. O leite hoje está valendo menos do que água, é uma vergonha”, diz a produtora. “Não tem nem comparação o que eu ganho com o queijo com o que eu ganharia se vendesse o leite. “

 

Para quem pensa em diversificar a produção, Marly conta que não foram necessários muitos investimentos e que linhas de crédito, como o Pronaf, foram importantes para construir a queijeira de acordo com as normas da legislação. “A gente precisa seguir boas práticas de manipulação, local adequado e ser capacitado, nada que seja impossível”, diz a produtora. Ela recomenda entidades do setor, como a Emater, que podem orientar e capacitar os produtores sobre a produção de queijo artesanal.

 

4 dicas para o sucesso pós-porteira

Além das boas práticas dentro da propriedade rural, uma boa forma de agregar valor aos produtos agrícolas é fazendo com que as informações sobre o seu negócio cheguem até o consumidor final. Em alguns casos, a aplicação de técnicas de marketing pode ser o que falta para o negócio deslanchar. “Quando você tem o domínio da produção você coloca o seu preço, quando trabalha com commodity o mercado coloca o preço”, explica Mariangela Alburqueque, diretora executiva e sócia proprietária da AgroMarketing Mix. De acordo com a especialista, é interessante que o produtor possa criar uma marca e apresentar os seus diferenciais.

 

1 – Industrialização

Investir em industrialização e na construção da marca pode ajudar o produtor rural a agregar valor aos produtos agrícolas. “Fazendo algum processo básico, o produtor rural já agrega valor, mas até ele criar uma marca ainda é uma commodity. “ A criação de uma marca própria, a industrialização e o beneficiamento são ferramentas que ajudam a atribuir valores mais altos quando comparados aos da matéria-prima.

 

2 – Criação da marca

A criação da marca faz com que o produto seja reconhecido pelo seu diferencial, seja ele o padrão, a qualidade ou a procedência. Investimentos em melhoramento genético e rastreabilidade, por exemplo, são diferenciais que precisam ser comunicados para o consumidor. “Com a marca você consegue que as pessoas identifiquem o produto e isso ajudar a capturar valor.”

 

3 – Capacitação

O produtor sabe muito da profissão dele, mas para avançar no pós-porteira é necessário investir em capacitação na área de marketing e gestão. Segundo Mariangela, a primeira dificuldade que, geralmente, o produtor enfrentar é entender como o mercado funciona. Por isso, buscar conhecimento ou orientação é fundamental.

 

4 – Redes sociais

As redes sociais podem ajudar o produtor rural. Com elas, é possível levar o produto para muito mais longe e com um custo menor, explica Mariangela. “Eu recomendo o uso de redes sociais, você fica sem fronteiras para o seu mercado e é uma maneira muito mais fácil das pessoas encontrarem a sua marca.”

 

 

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