DATA: 03/03/2016

Tecnologias promovem retomada de produção de banana no Amazonas

Manejo e cultivares resistentes a doenças permitiram superar desafios enfrentados pelos produtores

Agricultores do Amazonas estão retomando a produção de bananas graças ao uso de tecnologias que permitem produzir em áreas mesmo com a presença de doenças graves para o cultivo, como a sigatoka-negra. O plantio de cultivares resistentes às principais doenças associado ao manejo adequado e à adoção de técnicas recomendadas pela Embrapa são alguns dos fatores que têm permitido o aumento de produtividade.

 

Nos últimos anos agricultores do Estado têm sofrido grandes perdas na produção, com doenças e com as variações de enchentes e secas. “Apesar disso, a tendência de alguns agricultores passarem a usar tecnologias, como fertilizantes, cultivares resistentes e técnicas de manejo que viabilizam a produção, tem permitido a eles um resultado diferenciado, com produtividade que vai até o dobro da média do Estado e garantia de renda”, de acordo com o pesquisador da Embrapa Amazônia Ocidental (AM), Gilmar Meneghetti.

 

Segundo informações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a produção de banana no Amazonas foi de 54.610 toneladas em 2014 e passou a 92.557 toneladas em 2015. Embora o Amazonas contribua com pouco mais de 1% para a produção nacional da fruta, a retomada da produção no Estado é importante para a segurança alimentar e geração de renda local, principalmente por ser um fruto que está na base alimentar da população e a atividade envolver agricultores familiares de portes pequeno e médio.

 

Cultivares resistentes

Além de permitir renda, a substituição de plantios de bananeiras suscetíveis à sigatoka-negra por plantios de cultivares resistentes é uma alternativa que elimina custos com aplicação de fungicidas, mão-de-obra e equipamentos para controlar a doença, além de evitar a contaminação do meio ambiente e o risco de exposição de trabalhadores rurais e consumidores a agrotóxicos.

 

Desde a década de 1980, antes de o fungo chegar ao País, a Embrapa pesquisava e se preparava para enfrentar o problema, pois a doença já estava ocorrendo na América Central e em alguns países da América do Sul. Naquela época, a Embrapa Mandioca e Fruticultura (Bahia) enviou para a Costa Rica genótipos melhorados de bananeira para serem avaliados quanto à resistência à doença.

 

Em fevereiro de 1998 foi constatada a presença da sigatoka-negra no Brasil, pelos pesquisadores Luadir Gasparotto e José Clério Rezende Pereira, ambos fitopatologistas da Embrapa Amazônia Ocidental, que integraram a equipe que realizou os primeiros registros de ocorrência da doença nos municípios de Tabatinga e Benjamin Constant (AM), na fronteira com a Colômbia e Peru. Muitos agricultores perderam seus cultivos no Amazonas e também em estados vizinhos.

 

A partir de então, com a doença no País, os genótipos de bananeira melhorados foram transferidos para o Amazonas, para avaliar a resistência nas condições locais. Os mais resistentes e produtivos foram selecionados e lançados como as primeiras cultivares para o Estado, como alternativa para dar continuidade à bananicultura. Atualmente são recomendadas para o Amazonas as cultivares de banana Caipira, Thap Maeo, FHIA 18, Pacovan (Prata) Ken, BRS Caprichosa, BRS Garantida, BRS Vitória, BRS Japira e BRS Conquista.

 

Nos anos seguintes, o fungo se disseminou gradativamente pelo País, atingindo o Acre, Rondônia, Mato Grosso, Amapá, Roraima, Pará, São Paulo, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, e nos últimos anos em Tocantins, Maranhão e Rio de Janeiro. Cultivares resistentes foram lançadas para várias regiões, como alternativa para garantir a produção.

 

Ganhos com a tecnologia

 

O extensionista Jamilson Laray, técnico em agropecuária do Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal do Amazonas (Idam) relata que o cultivo de bananeiras resistentes tem permitido a agricultores familiares uma melhor qualidade de vida no município de Rio Preto da Eva (AM), onde o técnico acompanha, aproximadamente 180 agricultores que utilizam as cultivares Thap Maeo, Caipira e Fhia 18. Segundo o técnico, agricultores que seguem as recomendações técnicas estão conseguindo produtividade entre 35 a 40 toneladas por hectare/ano, o que é um resultado bem acima da média do Amazonas, de 12 toneladas/hectare/ano. Com isso, passaram a ter renda ao longo do ano.

 

Laray conta que vários desses agricultores em Rio Preto antes trabalhavam com extração clandestina de carvão, sofreram pressão da fiscalização de órgãos ambientais e buscaram apoio para ingressar na agricultura. O Idam recomendou a bananicultura. As mudas foram compradas de viveiristas pelo Governo do Estado e repassadas aos produtores. Com crédito rural, capacitação e adoção de tecnologia, estão colhendo resultados.

 

“Só houve melhoras pra gente depois da primeira safra de banana até agora; no carvão, a gente não tinha esperança”, conta o agricultor Matusalém Ramos, 33 anos, que passou a cultivar Thap Maeo e afirma que consegue produtividade de 40 toneladas por hectare/ano.

 

 

Uso de fungicida em bananeiras suscetíveis

Em algumas regiões do País, produtores utilizam fungicidas para controle da sigatoka-negra em plantios de cultivares suscetíveis ao fungo. Estudos realizados pela Embrapa indicaram que, nas condições do estado do Amazonas, onde clima é quente e úmido, seriam necessárias 52 pulverizações por ano com fungicidas protetores ou 26 com fungicidas sistêmicos, para controlar a sigatoka-negra. Esse tipo de controle por pulverização não seria viável na região amazônica, em razão do alto custo econômico e impacto ambiental, explica o pesquisador Gasparotto.

 

Em busca de alternativas para viabilizar a produção de cultivares suscetíveis ao fungo, uma equipe da Embrapa Amazônia Ocidental, coordenada pelos pesquisadores Luadir Gasparotto e José Clério Rezende Pereira, desenvolveu uma técnica que usa de forma eficiente menor quantidade de fungicida, reduz riscos na aplicação e oferece maior controle na aplicação em locais específicos da planta.

 

Para uso dessa técnica foi elaborado um equipamento adaptado a partir de uma seringa veterinária, mangueira de silicone ou látex e um cano com uma das pontas curvadas. O equipamento permite colocar gotas do fungicida no local específico de cada bananeira, chamado de axila da segunda folha. Dependendo do produto comercial, a dose recomendada de fungicida é de 1 a 2 ml por planta. A dosagem exata é ajustada na seringa. Com isso se evita a dispersão do produto no ambiente e se torna possível controlar a doença com apenas três aplicações por ciclo produtivo, que seria em torno de dez a 12 meses. Essa técnica tem sido utilizada por agricultores com preferência pelo plantio de bananas do grupo Terra, para o qual ainda não se tem opções de cultivares com resistência à sigatoka-negra.

 

Com base em estudos feitos pela Embrapa para avaliar essas tecnologias em propriedades rurais no Amazonas, o pesquisador da Embrapa Amazônia Ocidental economista José Olenilson Pinheiro afirma que as cultivares resistentes à sigatoka-negra e a técnica de aplicação de fungicida na axila da segunda folha da bananeira, associadas ao manejo recomendado nos bananais, permitem ganhos líquidos médios que vão de R$ 10 mil a R$ 14 mil por hectare, variando de acordo com o tipo de banana, a forma de comercialização e o mercado. “São diferentes cenários para cada uma, mas ambos estudos indicam que as tecnologias são viáveis economicamente”, afirma o economista.

 


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