DATA: 27/10/2015

Sobrevivência de abelha sem ferrão depende de fungo

A descoberta científica de pesquisadores brasileiros foi publicada em artigo na revista Current Biology

Fungo cultivado pelas próprias abelhas sem ferrão, conhecidas como mandaguari (Scaptrotrigona depilis), para alimentação de suas larvas é fundamental para a sobrevivência desses insetos. A descoberta científica de pesquisadores brasileiros foi publicada em artigo na revista Current Biology, uma das mais importantes do mundo na área da Biologia.

 

Esse é o primeiro registro da simbiose entre uma abelha social (que vivem em grupos) e o fungo cultivado, abrindo um novo campo de estudos sobre polinizadores. Aponta também para a importância de se manter essa relação simbiótica, tanto para a colônia de abelhas (cujas larvas precisam crescer) como para os seres humanos (que dependem de alimentos que as abelhas polinizam).

 

É a primeira vez que um cultivo de fungo é descoberto em uma espécie de abelha, relação semelhante já havia sido observada em formigas. “As larvas das abelhas comem o fungo e sem ele não se desenvolvem. Isso tem uma importância prática grande porque muitos fungicidas e bactericidas que não afetam as abelhas diretamente podem causar efeitos graves se afetarem os microrganismos das colônias”, relata o pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental (PA), Cristiano Menezes, responsável pela descoberta.

 

O fungo filamentoso (do gênero Monascus) se origina do material utilizado pelas abelhas para a construção das células de cria e dentro delas se desenvolvem. As células de cria se fecham logo após a rainha botar os ovos, dificultando a visão dos fungos no interior. A abelha pesquisada é do gênero Scaptotrigona, a principal polinizadora com a qual vem trabalhando Menezes.

 

O estudo também trouxe à tona algo que o pesquisador considera surpreendente: as abelhas usam fungos similares aos que os asiáticos já utilizam há séculos para conservar alimentos, como carne, por exemplo. “Estudar essa simbiose pode revelar novas substâncias aplicáveis à saúde humana e a das abelhas”, diz ele.

 

Outro aspecto único da descoberta é que, diferentemente do que acontece entre os insetos que cultivam fungos, nesse caso são as operárias que transmitem o fungo e não os indivíduos reprodutivos (rainhas ou fêmeas férteis).

 

O pesquisador identificou a ocorrência da simbiose quando tentava produzir rainhas de abelha sem ferrão em laboratório, durante seu doutorado na Universidade de São Paulo (USP), em Ribeirão Preto (SP), há cerca de oito anos. Depois, já na Embrapa, aprofundou os estudos para entender a relação entre as abelhas e o fungo.

 

“Levei mais de um ano combatendo o fungo como se fosse uma doença que atacava as abelhas. Tentava exterminá-lo, mas em vão. Resolvi experimentar criar as larvas em ambiente menos úmido, pois percebi que havia fungo nas células de cria naturais. Consegui com isso mais de 90% de sobrevivências na criação em laboratório. Foi quando pensei que a larva pudesse estar se alimentando do fungo”, comenta.

 

O estudo levou Menezes a supor que outras abelhas sejam dependentes de fungos, como seriam as principais polinizadoras do açaí. “Já encontrei fungos similares em outras espécies de abelhas sem ferrão do mesmo gênero e de outros gêneros distintos”, afirma. Como a diversidade de abelhas sociais, sub-sociais e solitárias é grande, especialmente em ambientes tropicais, o pesquisador considera provável que existam outros sistemas de cultivo de microorganismos.

 

O próximo passo do pesquisador é testar se os fungicidas usados nas culturas agrícolas podem afetar o fungo e a saúde das colônias. “Devemos proteger e estudar mais as abelhas, que atraem a atenção de pesquisadores, produtores e outras pessoas devido ao grande potencial de polinização das culturas agrícolas e seus produtos, como mel e própolis”.

 


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