Sérgio Mendes, diretor geral da Anec

A carga média de soja vale 20 milhões de dólares e cada dia de navio parado custa 30 mil. Qualquer atraso na emissão do certificado fitossanitário significa prejuízo.

Darlene Santiago - DATA: 07/12/2015 Em entrevista, o diretor faz uma profunda análise sobre as exportações brasileiras de grãos, a movimentação dos mercados e os desafios do setor

Sérgio Mendes é diretor geral da Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec). A associação completa 50 anos em 2015, com uma longa trajetória de trabalho para ampliar as exportações brasileiras. Atualmente, a Anec tem 40 associados, entre eles tradings, cooperativas, prestadores de serviços na área agrícola e outras empresas ligadas ao setor de exportação. Nos primeiros dez meses de 2015, os associados movimentaram mais de 50 milhões de toneladas de grãos.

 

Successful Farming Brasil – O Brasil está bem posicionado no mercado global?

Mendes

– Sim, o Brasil é competitivo. O Brasil tem uma grande vantagem que é conseguir produzir duas safras ao ano, enquanto os Estados Unidos tem apenas uma safra. Temos grandes distancias percorridas com caminhão, essa é a desvantagem em relação ao competidor dos Estados Unidos e da Argentina.

 

SF – Como podemos comparar o transporte entre esses países?

Mendes

– Na Argentina, a distância média entre o local da produção e o embarque é de 250 quilômetros. Os americanos enfrentam uma distância de cerca de 1.100 quilômetros, mas cerca de 60% da produção é transportada por modal hidroviário. Aqui no Brasil, a distância média da porteira da fazenda até o porto também é de 1.100 quilômetros e usamos o caminhão.

 

SF – Qual é a desvantagem financeira?

Mendes

– Para o produtor brasileiro, o custo de transporte da fazenda até o porto tem um adicional de 60 a 70 dólares por tonelada. Se não houvesse desoneração para as exportações, o Brasil não conseguiria participar do mercado internacional.

 

SF – O principal gargalo da produção de grãos é a logística?

Mendes

– Sim. São 52 milhões de soja, 30 milhões de toneladas de milho e 14 milhões de toneladas de farelo que o Brasil está exportando neste ano. Para movimentar tudo isso a gente precisa de 2,7 milhões de carretas. Todo mundo que estuda a cadeia sabe que temos uma matriz de transporte de grãos inadequada. Temos uma série de rios, como o rio madeira e o rio Tapajós, que não são aproveitados. Parece que Deus preparou tudo para a gente, com as melhores condições para termos hidrovias e a gente desprezou esse potencial.

 

SF – Os investimentos portuários que foram realizados nos últimos anos e as concessões para a construção de terminais privados não melhoraram a logística?

Mendes

– Foi feito um bom trabalho, mas que continua sem solucionar o problema do produtor. O problema é levar a produção até o porto. Os portos melhoraram, podemos citar Itaqui e Barcarena, que cresceram bastante. Se somarmos as exportações que saíram por Itaqui (MA) e Barcarena (PA), foram quatro milhões de toneladas de grãos a mais do que em 2014, no balanço parcial de janeiro a outubro. Isso significa tirar 114 mil carretas das rodovias da região Sul, que transportariam a produção até Santos (SP) ou Paranaguá (PR).

 

SF – O que a região Norte representa para o escoamento de grãos?

Mendes

– Essa rota é muito interessante para o exportador. A tendência é que as exportações saiam mais pelos portos de lá. Poderíamos usar o rio Madeira, o Tapajós, o Tocantins-Araguaia. No grande calado no rio Amazonas, poderíamos atracar até navios super panamax. Se essa rota pela região Norte funcionar bem, podemos equalizar os nossos custos logísticos com o gasto de transporte dos americanos.

 

SF – Por que essa rota demora tanto para se concretizar de fato?

Mendes

– Tenho a impressão de que quando se fala em hidrovia, o projeto não vai para frente porque pode passar por área indígena. Isso é uma burrice que não tem tamanho. A hidrovia representa uma ocupação inteligente, que tira caminhões das estradas e por isso reduz os acidentes e também reduz a emissão de CO2. Onde não tem hidrovia, há pressão para a abertura de estradas. Com a estrada, outro passa adiante, acaba povoando a área e começa a desmatar. Não tem jeito.

 

SF – O exportador também enfrenta algum problema no porto?

Mendes

– Cada país importador tem exigências diferentes. O que atrapalha todo dia é a emissão de certificados fitossanitários, porque há atrasos com frequência. Esse documento é um atestado de qualidade. O importador exige o certificado, sem isso ele não faz o pagamento.

 

SF – Qual é o prejuízo?

Mendes

– A carga média de soja vale cerca de 20 milhões de dólares e cada dia de navio parado no porto custa 30 mil de dólares. Então, qualquer atraso na emissão do certificado fitossanitário significa atraso no pagamento e prejuízo com o navio parado. Além disso, estamos nos tornando grandes exportadores de milho. Um navio de milho exige de 9 a 10 vezes mais certificados do que a soja, porque os importadores são menores e esse mercado tem outras exigências. A emissão de certificados é um grande problema.

 

SF – Qual é o principal motivo para esse atraso?

Mendes

– Só tem um laboratório capaz de fazer os exames de identificação de pragas quarentenárias para a emissão do certificado fitossanitário de exportação para a China. Imagine então a fila para emissão. Esse é um gargalo desgraçado. O laboratório não consegue entregar o exame no prazo.

 

SF – Há solução?

Mendes

– É preciso automatizar esse processo. O governo está avaliando a possibilidade de que seja automaticamente, com emissão eletrônica. E acredito que vistoriar o navio poderia ser um processo mais fácil, com vistoria feita pelas empresas supervisoras.

 

SF – Além de superar essas dificuldades, o Brasil pode conquistar novos mercados?

Mendes

– Não existe nenhum mercado que já não tenha sido explorado. As exportadoras são muito eficientes e não perdem oportunidades. Sobre a movimentação de mercado, prevemos que a China vaio aumentar seus negócios com a gente. Há pouco mais de uma década, o Brasil exportava cerca de 30% da soja para a China. Agora, 76,9% da soja brasileira são importadas pelos chineses. A China é cada vez mais relevante para nós. A tendência é que essa parceria se fortaleça.

 

SF – Se a economia chinesa desacelerar, isso não prejudicaria o Brasil imediatamente?

Mendes

– As pessoas confundem mercados. Quando se fala em exportação de commodities para a China, estamos nos referindo a vários produtos. Então, precisamos aprender a distinguir minério de ferro de produtos alimentícios. Se a economia chinesa tiver problemas, eles podem diminuir a importação de minério. Mas, os chineses não vão parar de comer. Eles precisam da soja.

 

SF – Essa dependência do mercado chinês não preocupa?

Mendes

– Como vamos fazer para não depender? A gente realmente é dependente do mercado chinês, isso é um fato. Por outro lado, os chineses também dependem da gente, porque somos um grande fornecedor de soja. A Argentina não conseguiria atender toda a demanda chinesa. O Brasil é o único país que tem a capacidade de fornecer soja e ainda pode triplicar o que produz, com aumento de produtividade e recuperação de pastagens degradadas.

 

SF – Com o novo presidente eleito, Mauricio Macri, a Argentina vai se destacar no mercado internacional?

Mendes

– Não sabemos o que vai acontecer com a Argentina. É possível que o governo reduza taxas e favoreça a exportação. A Argentina pode se fortalecer como competidor do Brasil no mercado.

 

SF – Qual é a opinião do exportador sobre o câmbio em 2015?

Mendes

– Não tem como o câmbio pesar contra o exportador. O dólar valorizado gera uma receita maior. Parte dessa receita vai para o produtor e parte dela vai para a exportadora. O produto é vendido por um dólar mais valorizado, mas os custos de transporte são calculados em reais, então a logística fica relativamente mais barata para o brasileiro. O Brasil fica mais competitivo.

 

SF – O dólar valorizado eleva a rentabilidade do produtor, porém, os custos de produção também aumentaram. O produtor vai conseguir fechar a conta no azul?

Mendes

– Por enquanto, o que posso dizer é que estamos registrando um recorde nas exportações em 2015. Acredito que seria mais vantajoso estamos numa situação de dólar estabilizado, mesmo assim acho que o câmbio não é o grande problema nesse momento. Eu tenho mais medo do El niño, porque esse fenômeno pode prejudicar a produção e causar uma queda na produtividade. O El Niño está preocupando os produtores, principalmente do Mato Grosso.

 

SF – Do que a Anec pode se orgulhar nesses 50 anos de existência?

Mendes

– A principal conquista da Anec foi ter participado da criação da Lei Kandir. Sem dúvidas, essa foi a maior conquista da associação. Após a criação da lei, a partir de 1996 temos uma significativa curva de crescimento do agronegócio brasileiro, com recorde atrás de recorde de produção e exportação de commodities.

 

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Tenho a impressão de que quando se fala em hidrovia, o projeto não vai para frente porque pode passar por área indígena. Isso é uma burrice que não tem tamanho. A hidrovia representa uma ocupação inteligente, que tira caminhões das estradas e por isso reduz os acidentes e também reduz a emissão de CO2. Onde não tem hidrovia, há pressão para a abertura de estradas. Com a estrada, outro passa adiante, acaba povoando a área e começa a desmatar. Sérgio Mendes, diretor geral da Anec