Lavoura de soja.
DATA: 11/08/2017

Sementes: produtores reclamam da baixa qualidade dos insumos

Agricultores revelam que enfrentam problemas de germinação, não recebem suporte das sementeiras e têm mais despesas com replantio Por Darlene Santiago (darlene@sfarming.com.br) e Naiara Araújo (naiara@sfarming.com.br)

O produtor investe tempo e dinheiro na aquisição do principal insumo para as lavouras e espera, no mínimo, que as sementes apresentem boas taxas de germinação e vigor. No entanto, muitos deles enfrentam problemas por causa da falta de qualidade do insumo disponível no mercado brasileiro. A principal reclamação é o prejuízo de arcar, sozinho, com a perda de produtividade causada por sementes ruins ou as despesas com replantio.

 

Na visão dos agricultores, o pagamento de royalties é abusivo e, com os preços da soja em queda e margens apertadas, o investimento em sementes fica prejudicado. A reportagem da revista Farming Brasil coletou depoimentos de produtores sobre a polêmica que engloba a Lei de Proteção de Cultivares (quer opinar também? Clique aqui e mande o seu depoimento para a reportagem). Confira:

 

Problemas com sementes

“Na primeira safra de soja 2015/2016, eu tive um problema sério em uma área em torno de 140 hectares. A semente não saiu do chão. A germinação foi em torno de 65% e ela estava com vigor muito baixo, demorou para fechar a linha. Além de prejudicar a lavoura, eu tive maior custo para controlar as plantas daninhas. Foi a pior produtividade que eu já tive na safra, foram 47 sacas por hectare. Eu não tive nem tempo de fazer teste de germinação na fazenda porque a semente chegou na abertura do plantio e eu fiquei com o prejuízo.

 

Comprei de uma sementeira regional. Era uma semente certificada, mas de baixa qualidade. Eu reclamei, o técnico veio olhar e inventou desculpas, depois nisso nunca mais fiz negócio com eles. Eu tinha uma soja com outra variedade, plantada no mesmo dia e [a lavoura] estava perfeita. Já ocorreu também de eu ter problemas com as sementes de multinacionais, o técnico vir e constatar e [a reclamação] não dar em nada.

 

A semente certificada precisa respeitar a legislação. Quando a gente compra, a gente espera que tenha qualidade. Esse tipo de problema ocorre com certa frequência. A safra 2015/2016 foi um show de horrores com falta de qualidade de sementes. Muita gente reclamou. A gente percebeu que a semente sem qualidade mostrou nesse momento que sofreu com o estresse hídrico.

 

Nós vendemos o grão de soja por cerca de R$ 1 o quilo hoje. Os custos com royalties [da semente] variam em torno de R$ 2 por quilo dependendo do consumo por hectare, e o valor que pagamos na compra da semente, onerando a sementeira germoplasma, logística, pode chegar a R$ 9 o quilo. Os royalties que se paga no Brasil é mais que o dobro do que se paga na Argentina. A gente tem que ter opções de poder produzir uma semente legalizada sem ser chamado de pirata.

 

Eu acho que tem que melhorar o controle de qualidade das sementes e a própria empresa que detém o germoplasma deveria ter uma política de qualidade com os multiplicadores e algum canal de cliente para que a gente possa reclamar quando tem problema. A legislação tem que proteger também o produtor contra os prejuízos. A semente tem que ter o mínimo de 80% de germinação, mas não tem exigência de vigor. A semente vem com um laudo que é totalmente questionável.

 

Seria importante ter um sistema integrado, com algum canal para que a gente possa cobrar por qualidade e ter uma política de vigor mínimo. O mais correto é estabelecer parceiros, comprar sempre de quem a gente conhece. Tem que ter um histórico de negócio para não ter problema.”

Depoimento de Vitor Tinazo, produtor de soja em Anápolis (GO)

*****

“A demanda por semente cresceu muito e as empresas correram atrás para ter material para vender. Então teve muita frustração de campo nesses últimos anos e eles não respeitaram critérios de produção. Eles colheram sementes de qualquer jeito, com umidade alta, e colocaram um monte de lotes no mercado com problema de vigor e germinação. Eu nunca passei um aperto porque eu sempre analisei na fazenda para ver vigor dos materiais. Tinha que nascer o que estava na análise de sementes, se não nascia, eu ligava para a empresa e dizia que tinha problema.

 

O preço aumentou demais, o royalty que a gente paga é muito alto. Muitas empresas compram de produtores que não tinham campos de sementes, [compram grãos] que estavam no silo-bolsa. É um problema sério. O produtor tem que ter o direito de produzir a sua própria semente, principalmente quando são materiais que já perderam os royalties. Quando as empresas vendem esses materiais com problema de germinação e vigor, o máximo que elas fazem é repor a semente. Mas o custo de replantio e de frustração de safra – porque passa da janela de plantio – é do produtor.”

Depoimento de Mauro Ferreira, produtor de grãos e pecuarista em São Francisco de Goiás (GO), ex-produtor de semente comercial de soja e milho

 

*****

Debate acalorado

Durante o XX Congresso Brasileiro de Sementes, em Foz do Iguaçu, especialistas defenderam que a legislação de proteção de cultivares é permissiva e ultrapassada. Isso estimula o uso indiscriminado de sementes salvas que beira a ilegalidade e a pirataria está avançando (leia mais: governo enfrenta dificuldades para fiscalizar).

 

Além disso, a guerra de preços está nivelando o mercado de sementes por baixo (leia mais na matéria disputa por preços baixos prejudica o mercado brasileiro). “O produtor compra a semente barata, não fica satisfeito e reclama que a semente em geral está ruim. E na maioria das vezes vemos sementes de qualidade sobrando no mercado”, afirmou Marco Alexandre Sousa, presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Sementes de Soja (Abrass).

 

As entidades que representam obtentores de tecnologia e sementeiros reivindicam mudanças na legislação. Há um projeto de lei que está arquivado no Ministério da Agricultura e outros dois projetos em tramitação no Congresso Nacional. Entre as mudanças em debate, os produtores de sementes propõem pagamento de taxas para o uso de sementes salvas, legislação mais rigorosa e maior fiscalização para combater a pirataria. Leia mais: cobrança de taxa e fiscalização podem coibir a pirataria.

 


Comente essa notícia.

Faça seu cadastro ou login gratuito para enviar comentários.