Reginaldo Morikawa, presidente da Aval

O frango caipira tem um grande apelo mercadológico. É um produto marcado pela tradição, valorizado por ter um sabor marcante e considerado mais saudável. Com a normatização, será ainda mais valorizado.

Darlene Santiago - DATA: 09/11/2015 Segundo Morikawa, os produtores de frango caipira comemoram a criação da norma da ABNT, que vai regulamentar o setor e garantir a qualidade do produto

Successful Farming Brasil – Com a criação da norma ABNT NBR 16389:2015, quais serão as principais mudanças para a criação de frango caipira?

Reginaldo Morikawa

– De acordo com a norma, a ave deverá ter uma área livre para pastejar e tomar banho de sol. A criação de frango caipira permite que a ave expresse os seus comportamentos naturais. É proibido o uso de melhoradores de desempenho, conhecidos como promotores de crescimento, a base de antibióticos. Outra regra importante é que teremos um padrão de produção de 70 dias. Esse período foi calculado e comprovado como sendo a hora certa que a ave atinge a maturidade ideal e consegue adquirir as qualidades desejadas de sabor, cor, aroma e textura. A ave tradicional vai para o abate com 40 dias de vida.

 

SF – As regras passam a valer de imediato?

Morikawa

– As regras passaram a valer no dia 27 de agosto, mas não é uma mudança instantânea. No caso da avicultura, a adequação é um processo mais lento, porque envolve uma grande cadeia de pequenos produtores rurais.

 

SF – O pequeno produtor vai querer seguir a norma?

Morikawa

– Claro, o produtor de frango caipira é o maior interessado em seguir a norma. Será uma grande vantagem incluir no rótulo do produto a informação de que ele segue as normas da ABNT. Isso representa uma agregação de valor. É claro que vai levar um certo tempo até que os produtores consigam se adequar, mas o resultado vai ser bom para todos. Aval vai promover cursos e levar as informações ao produtor. Acredito que esse processo de adequação vai acontecer naturalmente.

 

SF – O frango caipira deixará de ser um nicho de mercado?

Morikawa

– Não. A população precisa de proteína. Por questão de segurança alimentar, a produção de frango caipira não compete nem vai competir com a produção tradicional de aves. Não temos uma produção de alta performance. As raças convencionais têm aptidão para produzir mais peito e coxa. O frango caipira é um animal mais ossudo, uniforme, e o rendimento de carne é menor. Porém, é mais saboroso. O setor vai continuar sendo um nicho de mercado. Mas, agora, passa a ser um nicho bem identificado. Temos respaldo para crescer e avançar na qualidade do produto.

 

SF – O que definia a produção anteriormente?

Morikawa

– Havia apenas um ofício do Ministério da Agricultura (MAPA) que citava a criação do frango caipira. As regras eram muito abrangentes e pouco claras e isso permitia várias interpretações. Então, a gente não conseguia determinar um padrão para o produto, uma vez que não havia uma regulamentação oficial. Se não tinha uma norma a ser seguida, todo mundo produzia como quisesse e ninguém estava errado. Além disso, em 2013, esse ofício do Mapa deixou de ter validade e o setor ficou muito fragilizado.

 

SF – A criação da norma foi uma reivindicação dos produtores?

Morikawa

– Sim. Criamos a Associação Brasileira da Avicultura Alternativa (Aval) em 2001, com o objetivo de organizar a cadeia, padronizar o produto e levar informação ao consumidor. A nossa primeira conquista foi unir os produtores. Hoje, temos mais de 100 associados que englobam todas as pontas, temos produtores, abatedouros, empresas de nutrição, saúde animal, genética. Entramos em contato com o Mapa, mobilizamos empresas e produtores e trabalhamos durante três anos para regulamentar a produção. É uma conquista muito grande. Ainda estamos comemorando.

 

SF – A norma pode ganhar maior importância?

Morikawa

– A norma da ABNT hoje significa o maior instrumento de regulamentação do setor. Acredito que o Mapa vai transformar as regras da ABNT numa normativa nacional, é só uma questão de tempo. A norma vai passar por um período de experimentação e de consulta pública até que isso aconteça.

 

SF – O que essa conquista significa para o segmento?

Morikawa

– O frango caipira vai ser bem reconhecido na ponta final da cadeia e não vai ser mais confundido com outros tipos de aves. Ter frango caipira passará a ser obrigação no portfólio de muitas empresas. Além disso, a norma vai ajudar a desenvolver raças de aves adaptadas para o processo de crescimento lento, como a Paraíso Pedrês. Há mais de 300 raças de frango caipira na França enquanto que, aqui no Brasil, são menos de 50 raças. Acreditamos que essa questão vai avançar.

 

SF – Qual é a representatividade do setor?

Morikawa

– Cerca de 80% dos agricultores familiares produzem frangos caipiras. Desse total, 53% dos produtores utilizam a atividade como fonte de renda extra. O setor está produzindo cerca de oito milhões de pintinhos por mês. No ano passado, foram 84 milhões de pintinhos e 252 milhões de quilos de carne. Com a norma, estimamos que a produção cresça 30% em 2016.

 

SF – Como você avalia a imagem do frango caipira?

Morikawa

– O frango caipira tem um grande apelo mercadológico. É um produto marcado pela tradição, valorizado por ter um sabor marcante e considerado mais saudável. É um produto que está enraizado na cultura brasileira. Além disso, o brasileiro está se interessando cada vez mais pela culinária gourmet e o frango caipira atende justamente essa tendência, de buscar um alimento de melhor qualidade e mais saboroso. Com a normatização, o frango caipira será ainda mais valorizado.

 

SF – Qual é a diferença entre frango caipira, colonial, capoeira e orgânico?

Morikawa

– O frango caipira, o colonial e o capoeira são a mesma coisa. São aves livres do uso de antibióticos. O frango orgânico, além de respeitar a norma da ABNT, tem de se enquadrar na lei de produção orgânica. O processo de produção é mais rigoroso. A ave só pode se alimentar de ração com ingredientes orgânicos, livre da aplicação de defensivos, entre outras exigências.

 

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Teremos um padrão de produção de 70 dias. Esse período foi calculado e comprovado como sendo a hora certa que a ave atinge a maturidade ideal e consegue adquirir as qualidades desejadas de sabor, cor, aroma e textura. Reginaldo Morikawa, presidente da Aval