DATA: 30/12/2015

Rede social facilita o comércio de café

Jovens suíços criam plataforma digital que reúne produtores rurais e torrefadores de todo o mundo Naiara Araújo

Algrano, expressão que em espanhol significa direto ao ponto, foi o nome escolhido pelos suíços Gilles Brunner, Christian Burri e Raphael Studer para batizar uma plataforma digital focada no mercado de café. Lançada em junho deste ano, a comunidade nasceu com o propósito de diminuir a distância entre produtores e torrefadoras que trabalham com grãos especiais.

 

A plataforma funciona como uma rede social do café e conta atualmente com 331 usuários cadastrados, sendo 135 produtores e 196 torrefadoras, de 45 países. Entre os cafeicultores, 80 são brasileiros, a nacionalidade com maior participação na comunidade. Isso já era esperado pelos empreendedores, já que o Brasil lidera a produção mundial de café, registrando uma produção de cerca de 42,15 milhões de sacas de 60 quilos em 2015.

 

Nesse mercado, a rota do café costuma ser longa: o produtor vende o café para uma exportadora brasileira, que revende para uma importadora estrangeira, que só aí repassa o produto às torrefadoras. “Para a torrefadora, a rastreabilidade é muito difícil e essas informações são importantes para quem oferece um café diferenciado”, diz Gilles Brunner.

 

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Os idealizadores da Algrano, Gilles Brunner, Christian Burri e Raphael Studer

Segundo ele, a rede Algrano vai conseguir encurtar essas distâncias. A plataforma tem dois pilares, o primeiro é abrir espaço para que o produtor divulgue fotos, compartilhe experiências da lavoura e mostre o seu produto. O segundo está ligado ao lado comercial, que é quando os cafés são apresentados em um container virtual e as torrefadoras podem pedir amostras diretamente aos produtores, provar e avaliar os grãos publicamente na rede.

 

 

Até o momento já foram vendidos dois containers de café para compradores europeus, um com café de origem na Nicarágua e outro brasileiro, do Sul de Minas Gerais. Após essas experiências, Brunner garante que a comunidade virtual pode aumentar os lucros dos cafeicultores. “Eles [os produtores] vão desenvolver uma relação direta com a torrefadora e elas querem incentivar a qualidade, por isso pagam um preço mais alto”, diz.

 

Quem define o preço do café na plataforma é o próprio produtor, mas a dica para ter um bom desempenho na rede é retratar bem a rotina na fazenda para valorizar a produção. De acordo o empresário, informações sobre a história da fazenda e da produção e fotos são o que os compradores buscam.

 

O negócio é intermediar

A Algrano se responsabiliza pelo transporte do café e lucra quando os produtores e os torrefadores fecham uma venda. A taxa cobrada pelo serviço varia entre 10 % e 20% do preço FOB, que leva em conta o frete do transporte marítimo. De acordo com Brunner, os dois primeiros negócios movimentaram cerca de 30 mil dólares.

 

O diferencial da Algrano, segundo Brunner, é que a empresa não seleciona os cafés. A escolha da torrefadora é livre e a startup apenas facilita a logística da comercialização. Até o fim deste ano, já está previsto o embarque de mais dois containers para torrefadoras europeias, com grãos produzidos no Sul de Minas e no Espírito Santo. Além de brasileiros, cafeicultores da Colômbia, Bolívia, Peru, Indonésia e países da África também estão cadastrados na plataforma. Até o momento, as vendas tiveram como destino apenas a Europa, mas muitas torrefadoras dos Estados Unidos já estão ativas na comunidade.

 

Para turbinar os negócios, a Algrano planeja desenvolver um aplicativo para melhorar a funcionalidade da comunidade, em 2016. “O nosso objetivo para este ano foi demonstrar que o nosso modelo funciona e isso foi feito com sucesso”, conta. Brunner. “Para o próximo ano é desenvolver esse mercado na Europa e aumentar o volume de café apresentado.” Outro caminho para crescer, segundo Brunner, será expandir o modelo para a venda de outros produtos agrícolas, como cacau e frutas.

 

Do Chile para o Brasil

Embora os idealizadores do projeto sejam suíços, a história deles está diretamente conectada à América Latina, principalmente ao Brasil. Foi aqui que nasceu a ideia do negócio, quando Brunner trabalhava oferecendo assistência para produtores de café no Sul de Minas e Espírito Santo em 2013.

 

“Eu fiquei muito impressionado com o desenvolvimento das redes sociais, o acesso à internet até nos lugares mais rurais do Brasil”, diz Brunner. “As torrefadoras querem cada vez mais rastreabilidade, saber de onde vem o café, quem produziu e como foi produzido, então achei que criar uma plataforma onde os produtores possam apresentar seu produto era uma solução.”

 

A empresa iniciou as atividades em 2013, no Chile, em 2013, quando a Algrano recebeu incentivo de 35 mil dólares do programa Chile Startup. No ano seguinte, porém, a empresa mirou para o Brasil, após serem selecionados pelo programa Startup Brasil, que ofereceu bolsas para pesquisa científica no valor de R$ 200 mil.

 

 


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