Vaca leite
DATA: 23/02/2016

Produtores de leite cortam custos e lutam contra a crise econômica

Para sobreviver no setor, a estratégia é investir em gestão, novas tecnologias para elevar a produtividade e apostar na exportação Paula da Cunha

Quem encontra os produtores de leite da região de Passos, no interior de Minas Gerais, por vezes até se esquece da dimensão da crise econômica que o Brasil enfrenta, com a pior recessão desde os anos 90 e retração do PIB projetada em 3,5% para 2016. Seguindo uma cartilha de gestão proposta pela Associação de Produtores de Leite (Aproleite) desde meados de 2014, grande parte dos empresários associados acrescentaram em seu faturamento 0,25 a 0,30 centavos por litro – algo como R$ 750 ao dia -, diminuíram os custos, inovaram a maneira de gerir as fazendas e aprenderam a fazer mais com menos e se preparar para enfrentar a crise em 2016.

 

“Temos que aproveitar todas as oportunidades do mercado, ele em crise, ou não”, diz Cássio Camargos, consultor da Aproleite. O aumento no faturamento dos produtores não foi à toa. Eles seguiram um projeto proposto pela associação, que segue três etapas. A primeira, voltada para o financeiro, pois, segundo Camargos, grande parte dos associados não administravam a relação entre ganho e despesa corretamente, o que geravam dívidas. Já a segunda, refere-se ao controle zootécnico da fazenda, para auxiliar os produtores a fazerem anotações e terem o controle leiteiro e reprodutivo de cada animal da fazenda. De acordo com o consultor, os indicadores do desempenho são fundamentais para a tomada de decisões do produtor e colabora a aumentar a qualidade da atividade. Por fim, montaram uma espécie de equipe de central de compras, para negociar, em conjunto com os produtores, medicamentos e insumos para a fazenda em preços mais baratos. “O nosso principal objetivo é motivar os produtores a melhorar a gestão da fazenda, seja financeira, ou zootécnica”, diz Camargos.

 

Realidade difícil

A realidade do exemplo acima, no entanto, não se encaixa a todos os agentes do setor lácteo. O produtor se depara com uma margem de lucro cada vez mais apertada, custos elevados, principalmente pela alta no preço dos produtos usados como soja e milho, usados como insumos, queda no poder de compra da população. Somado a isso tudo, o clima não ajudou. Na região sul, o excesso de chuvas alagou áreas de criação e comprometeu a produção, atrapalhando a coleta do leite, bem como as pastagens de inverno usadas na região para a alimentação dos animais. Já na região centro-oeste, o que pesou aos produtores foi a falta de precipitações.

 

Com isso, os empresários do setor se veem de mãos atadas e sem direção para escapar. Em dezembro, por exemplo, o preço médio bruto – inclui frete e impostos – pago ao produtor foi de R$ 1,0534/litro, 2,04% menor, em termos reais, que o de um ano atrás, segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada, da Esalq USP. Com exceção dos estados do Sul, todas as outras regiões avaliadas pela entidade tiveram quedas nos preços, que refletem o período sazonal de safra.

 

É preciso se adaptar para sobreviver no negócio

A tendência de mercado apontada por especialistas é que, os produtores que não conseguirem se adaptar à crise e reestruturarem a linha de negócios e produção, vão perder participação de mercado e, até mesmo, ter que deixar o negócio. “Quem não conseguir se adequar a nova realidade, não sobreviverá”, diz Henrique Costales Junqueira, gerente da Castrolanda Cooperativa Agroindustrial. “Alguns produtores estão reduzindo a produção, desestimulados com a situação”, afirma Junqueira. “O custo está alto e o preço estrangulado, isso reflete em redução de produção.”

 

Em meio a esse cenário desafiador, a palavra de ordem para os produtores brasileiros é saber se reinventar. Para tentar driblar o incremento de custo da produção enquanto a produção do leite continua menor, com queda de 2,5% de volume entre janeiro e setembro de 2015, segundo os últimos dados do IBGE, o foco será o mercado externo. Diferente do milho, da soja, do açúcar, do algodão e do boi gordo, que foram favorecidos pela desvalorização do real frente ao dólar, o que trouxe uma maior remuneração ao produtor em 2015, a pecuária de leite teve um ano difícil em todos os seus elos.

 

Nesse cenário, os produtores estão focando no mercado internacional. Embora em 2015 o Brasil tenha exportado US$ 319 milhões, o equivalente a 442 milhões de litros de leite, uma queda de 6% quando comparado com 2014, o setor demonstrou fôlego no segundo semestre, com quatro superávits seguidos. De olho nessa oportunidade, principalmente pela valorização do câmbio, que torna o produto brasileiro mais competitivo, a meta para o ano é fortalecer a cadeia produtiva e aumentar as exportações, fazendo o superávit na balança comercial se tornar algo recorrente ao setor lácteo.

 

Como aumentar a produção?

O grande desafio do Brasil para ganhar novos mercados é ampliar o volume de leite produzido no País. Para que isso ocorra, o único caminho é elevar a produtividade para níveis de referências mundiais, como a Argentina, com 16 litros por vaca e a Nova Zelândia, com 11 litros por vaca, e, assim, ficar mais competitivo. Atualmente, a produtividade média de pequenos produtores no Brasil é de 50 litros de leite por dia, abaixo da média global de 200 litros diários. “Todas as crises têm como resultado um impacto favorável no processo, como em ganho de eficiência”, diz Junqueira. “Os produtores terão que se ajustar para uma visão de longo prazo.”

 

O Ministério da Agricultura também aposta em políticas para incentivar o setor. No segundo semestre do ano passado, foi lançado o programa Leite Saudável, que vai investir R$ 387 milhões para promover a melhoria da qualidade do leite e impulsionar as exportações. A ideia é que 80 mil produtores sejam beneficiados pelo projeto e que o faturamento com as exportações saltem de US$ 300 milhões para US$ 825 até 2018.

 

Para exportar, é preciso ter qualidade

A missão de melhorar a qualidade do leite brasileiro, no entanto, não será fácil. Segundo Cássio Camargos, consultor da Aproleite, há dois grandes problemas atualmente em relação à qualidade do produto nacional. O primeiro, diz respeito a questões sanitárias, ligadas diretamente à limpeza dos aparelhos, que acabam contaminando o produto. O segundo, é relacionada à saúde das vacas e são examinadas pela Contagem de Células Somáticas (CCS). Originadas no sangue, elas são as células de defesa do animal. Quando o animal está doente e infectado por bactérias, o número das CCS aumentam, causando um processo inflamatório chamado de mastite, o que muda a composição do leite, diminuindo a concentração de proteína e aumentando ácidos e alterações minerais. “Os produtores devem ficar atentos à prevenção. O tratamento ajuda, mas não é a saída para melhorar a qualidade dos leites”, diz Camargos.

 

De acordo com o consultor, propor análises para medir a quantidade de bactéria no leite e ter sempre o gerenciamento zootécnico, com contagem para avaliar se as vacas estão doentes, assim como treinar os ordenadores, são as principais medidas para diminuir esse problema. Dados da Aproleite apontam que, atualmente, 50% do leite nacional está fora do padrão de qualidade exigido.

 

As promessas do mercado internacional

Se o ano de 2015 foi considerado como o de abertura de novos mercados para a indústria láctea, 2016 será o que a cadeia produtiva será fortalecida, por meio de incremento em produtividade e, assim, ampliar os destinos dos produtos nacionais.

 

Embora o Brasil registre balança comercial negativa há seis anos, segundo Marcelo Martins, diretor-executivo da Viva Lácteos, a Associação da Indústria de Lácteos, acredita fortemente que o superávit da balança comercial é possível. Por isso, a indústria vai perseguir essa meta e fortalecer o trabalho de promoção do produto brasileiro no Exterior. Para a Rússia, por exemplo, foram exportados 182 toneladas de manteiga e 248 de queijo no ano passado. Para 2016, o objetivo é dobrar esse número. “Há, também, a expectativa de iniciar os embarques para a China, este é o novo desafio do setor”, diz Martins.

 

Atualmente, o mercado chinês representa 9% das importações mundiais de manteiga; 3% de queijo e 21% de leite em pó e o México também poderá entrar na rota de exportação. “Além de programas para promover o País internacionalmente, vamos estimular cada vez mais investimentos em tecnologias, que melhorem a qualidade do nosso produto”, afirma Martins.

 


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