DATA: 05/11/2015

Pescado melhor aproveitado

Pesquisas realizadas na ESALQ apontam possibilidades de reciclagem de resíduos da cadeia do pescado a fim de viabilizar coprodutos de alta qualidade

Boa parte da população que busca uma alimentação saudável sabe que deve incluir, no cardápio, porções regulares de carne de pescado. No entanto, nem todo mundo tem conhecimento do desperdício gerado na filetagem, seja durante o processamento industrial do produto disponível nas prateleiras dos supermercados ou na lista de ofertas gastronômicas dos restaurantes especializados. Para tentar minimizar o descarte nessa cadeia produtiva, a professora Marilia Oetterer, do Departamento de Agroindústria, Alimentos e Nutrição da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (USP/ESALQ), coordena pesquisas que procuram reciclar resíduos do processamento de pescado visando obter coprodutos com valor agregado. “Desperdícios e resíduos do pescado chegam a representar 70% do total da produção em todo o mundo e da coleta seletiva dos resíduos é possível obter óleo, farinha, concentrado e hidrolisado proteico, silagem, adubo, ração, minerais, entre outros”.

Com esse propósito trabalha a equipe do Grupo de Estudo e Extensão em Inovação Tecnológica e Qualidade do Pescado (Getep), coordenado pela professora Marilia. “Os estudos buscam a   sustentabilidade da cadeia produtiva, a minimização do impacto ambiental e o aumento da receita na empresa processadora”, complementa a docente.

Segundo a coordenadora do Getep, ao selecionar os resíduos é possível obter frações mais específicas, o que possibilita a obtenção de coprodutos de maior valor. “A silagem é uma forma pouco onerosa, independente de escala, que utiliza para a sua elaboração, as próprias enzimas tissulares e das vísceras do pescado e que pode se constituir em   fonte proteica para a alimentação animal. Em contraparte, o hidrolisado protéico exige a utilização de enzimas específicas e um processo controlado”.

Uma dessas pesquisas foi desenvolvida pela bióloga Taciana Lunelli no Programa de Pós-graduação em Ciência e Tecnologia de Alimentos (PPG-CTA). O objetivo foi elaborar e caracterizar hidrolisados proteicos de cabeças de tilápia (Oreochromis niloticus), e aferir a atividade antioxidante deste coproduto. “O hidrolisado proteico foi obtido por hidrólise enzimática e empregando as enzimas Neutrase (Protemax NP-800), Papaína (Brauzyn-100) e Pepsina”, detalha Taciana. Os resultados apontaram que as propriedades observadas nos hidrolisados indicam que este pode ser um potencial suplemento alimentício. “Além de apresentar fácil e rápida elaboração, servem como fonte rica de proteína, aditivos para conservação de alimentos e, também, na indústria farmacêutica”, complementa a autora do estudo.

Peptona

Substrato utilizado em análises laboratoriais para fins de diagnóstico, a peptona pode ter, a partir de outro estudo desenvolvido no Getep, uma alternativa natural. A autora é Ligianne Din Sirahigue Viani, que propôs em seu doutorado, defendido no Centro de Energia Nuclear na Agricultura (CENA) da USP, frações aquosas obtidas das silagens de tilápia e beijupirá. “Essas porções podem ser convertidas em peptonas a partir do fracionamento seguido de liofilização”, explica. Ainda segundo Ligianne, o processo para obtenção de silagem mostrou-se simples e de fácil manuseio, não exigindo equipamentos e procedimentos custosos. “A peptona obtida tanto a partir da tilápia quanto do beijupirá revelou-se alternativa viável, à peptona comercial, uma vez que esses coprodutos apresentaram-se estáveis à temperatura ambiente; o pH próximo de 4, garante a qualidade do coproduto pelo período de 40 dias de armazenamento”.

 

Com informações da USP/ESALQ.


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