Pecuária - Integração Lavoura-Pecuária-Floresta - ILPF

Pecuária: autoconhecimento e desafios para produzir mais carne no Brasil

A demanda tecnológica para aumentar a rentabilidade nas fazendas supera a demanda por tecnologia para liberar área de pastagens

Hoje já se sabe que o driver para o desmatamento foi a demanda pela ocupação de terras, e não a produção de carne. A pecuária, portanto, não precisou de desmatamento; foram as áreas desmatadas que precisaram da pecuária para que se consolidassem.

 

O contexto de ocupação acabou por limitar a expansão tecnológica da pecuária. Até meados dos anos 1990, o avanço sobre as novas áreas fazia com que o estoque de bovinos improdutivos no rebanho aumentasse lentamente. A partir do controle da hiperinflação, com o advento do Plano Real, a produtividade da pecuária começou a aumentar, assim como ocorreu com diversas outras atividades. Ao contrário do que se pensava até bem pouco tempo atrás, também houve ganho na bovinocultura. O rendimento por área ocupada pela bovinocultura aumentou significativamente a partir de 1990.

 

De 1990 a 2015, o ganho da produtividade evitou o desmatamento de cerca de 200 a 230 milhões de hectares. Chega-se a este número calculando qual seria a necessidade de área para produzir a quantidade de carne ofertada nos últimos anos, caso a tecnologia de produção ainda fosse a mesma adotada em 1990.

 

O aumento de produtividade, no entanto, ocorreu mais pelo efeito zootécnico, com o uso de tecnologias relacionadas ao desempenho animal, do que pelo efeito agronômico ou, melhor dizendo, pela melhoria das pastagens. Em 25 anos, a produtividade por hectare aumentou 130%, enquanto a lotação bovina avançou 62% no mesmo período. A produção e o manejo das pastagens continuam sendo o principal gargalo da pecuária.

 

O aumento na ocupação ao longo dos anos, mesmo que seja metade do ganho total em produtividade, tem um grande impacto na ocupação da área. Entre 2007 e 2016, a área total desmatada na Amazônia Legal foi de 7,5 milhões de hectares. No mesmo período, a agricultura avançou 10,2 milhões de hectares, enquanto a área de pastagens recuou 19 milhões de hectares.  A soma da área destinada à produção agropecuária recuou de 250,1 para 241,4 milhões de hectares, um saldo de 8,8 milhões de hectares que deixaram de ser explorados pela agropecuária.

 

A explicação está na revegetação nas áreas de pastagens que, de acordo com a ponderação de diversos dados disponíveis, acumula 32 milhões de hectares em apenas 10 anos. São pastagens que foram perdidas, após completaram todo o ciclo de degradação; totalizando prejuízos para os produtores e para a sociedade como um todo.

 

Os dados do Terraclass, Map Biomas e de empresas como Agrosatélite comprovam a ocorrência de reinfestação em áreas de pastagens, fato que demanda ainda mais estudos, orçamentos e esforços para melhorar os diagnósticos sobre a realidade das pastagens no Brasil.

 

Por falar em esforço, é essencial citar o exemplo do Rally da Pecuária, expedição que também se consolidou nestes últimos 10 anos. Aplicando uma metodologia de amostragens aleatórias, entrevistas e avaliação por imagens de satélite, a Agroconsult, organizadora da expedição, vem acumulando informações e dados sobre a realidade das pastagens em diversas regiões.

 

Nas avaliações a campo nas últimas quatro edições (2014, 2015, 2016 e 2017), foi identificado seguinte padrão de qualidade das pastagens: Em cinco critérios, as pastagens são classificadas pelas notas de 1 a 5, sendo que o stand tem peso 5, massa e invasoras possuem peso 3, enquanto os demais itens (homogeneidade, erosão e topografia) possuem peso 1.  Vale ressaltar que, quando há muita erosão, o stand já foi comprometido e o pasto segue um outro sistema de avaliação posterior à degradação.

 

Pasto degradado e pasto de qualidade

Portanto, a diferença entre o degradado e o pasto de qualidade 2 é a necessidade de reforma, um orçamento cerca de duas vezes superior ao que se pede tecnicamente para uma recuperação. Enquanto o stand de plantas no pasto degradado é insuficiente para uma recuperação, o pasto de qualidade 2 ainda pode ser restabelecido sem a necessidade de reforma.

 

Em análise por imagens de satélite dos pontos amostrados pelo Rally da Pecuária até 2014, observou-se que 12% das pastagens haviam passado por reformas entre os anos de 2003 e 2014, enquanto outros 13% haviam passado por recuperação. Os dados ainda mostram processo de degradação em 30% delas.

 

Ou seja, avaliando o índice de vegetação por imagem de satélite, estes pastos estão piorando ano a ano sem intervenção. Somando as três classificações, chega-se à conclusão que 55% dos pastos visitados pelo Rally da Pecuária, entre os anos de 2011 e 2014, estavam passando pelo processo de degradação.

 

Os 45% classificados como “sem intervenção” não possibilitaram diagnóstico visual por satélite; nem pioraram e nem melhoraram. Não significa, contudo, que nada tenha ocorrido naquelas áreas, mas sim que não foi possível analisar por satélite. Distribuindo as intervenções anualmente, ao longo da série temporal, é possível esperar um nível de reforma e recuperação em torno de 2% a 2,5% ao ano, insuficiente para compensar a taxa média de 3% a 4% que atinge o nível “degradado” ao ano.

 

Caso se considere que todos os pastos deveriam estar com a qualidade 5 (a mais alta de acordo com o critério adotado pela da Agroconsult), pode-se apontar que 78% estariam com algum nível de degradação. Esse último critério é questionável, pois parte da hipótese de que todas as pastagens estiveram no nível de qualidade mais elevado, o que não é necessariamente uma verdade.

 

Em resumo: dependendo do critério considerado, é possível apontar que entre 55% e 77% dos pastos estão em processo de degradação. Os 55% são identificados pelo acompanhamento dos pontos por imagem de satélite, estudo conduzido pela Agrosatélite sobre dados coletados entre 2011 e 2014.

 

Depois de anos esgotando os diversos assuntos sobre áreas, emissões de carbono, água, produtividade, bem estar animal e todas as outras dimensões relacionadas à sustentabilidade, finalmente a face do verdadeiro desafio começou a surgir diante de todos. O maior risco relacionado à sustentabilidade na pecuária não está relacionado à questão ambiental, mas sim à social.

 

O desafio da pecuária

O inevitável resultado de anos de estudos sobre a pecuária esbarra em preconceitos arraigados em torno da pecuária de corte. Os desafios, que outrora pareciam relevantes, começam agora a despontar como problemas potenciais, realidade que os mais atentos às tendências da pecuária perceberam anos antes.

 

Assim, o desafio da pecuária não estará em liberar áreas para atender as demandas de outras atividades, mas sim no que fazer com os que serão excluídos das áreas que irão sobrar. A exclusão é consequência da heterogeneidade na adoção de tecnologia pelos produtores. Os pecuaristas mais ágeis intensificam mais rapidamente, ampliando a sua competitividade e acelerando a exclusão dos produtores mais lentos, que concentram a maior parcela de revegetação das áreas de pastagens, depois de degradadas.

 

Essa diferença altera todo o modelo de trabalho relacionado à sustentabilidade na pecuária, impondo uma mudança de conceitos que representa um choque para muitos profissionais dedicados à sustentabilidade nos últimos anos, principalmente os ambientalistas.

 

No ano que o Grupo de Trabalho em Pecuária Sustentável (GTPS) completa os 10 anos, há uma aparente quebra na harmonia entre o setor produtivo e as ONGs, que exemplarmente trabalham juntos nos últimos anos. E ao contrário do que sempre se apregoa na grande mídia, não é o setor produtivo que aparenta se negar a encarar o problema.

 

O principal desafio para o GTPS dos próximos anos é manter a interlocução em prol do objetivo comum, que é a sustentabilidade. A questão que ficará no ar é se os ambientalistas aceitarão rever os conceitos focando as ações na questão social ou vão tentar encontrar problemas para as soluções que apresentam.

 

*  Maurício Palma Nogueira é engenheiro agrônomo, sócio e coordenador de pecuária na Agroconsult.

* AVISO LEGAL/ DISCLAIMER
Este artigo é de autoria de colaborador convidado, articulista ou parceiro da Farming Brasil. Informamos que quaisquer declarações técnicas e opiniões contidas neste texto são única e exclusivamente de inteira responsabilidade do respectivo autor do artigo e não representam necessariamente a opinião do portal SF Agro ou da revista Farming Brasil.

 

Leia mais