Paulo Sentelhas, professor de agrometeorologia da Esalq/USP

O que o produtor precisa é melhorar a qualidade das suas tomadas de decisão. Ele precisa saber qual é o melhor momento para preparar o solo, a hora certa de plantar, quando deve aplicar os defensivos químicos.

Darlene Santiago - DATA: 02/11/2015 Sentelhas analisa o avanço da área no Brasil, as dificuldades para realizar previsões e como os produtores podem se beneficiar das informações meteorológicas

Successful Farming Brasil – Como a agrometeorologia tem avançado no Brasil?

Paulo Sentelhas

– A agrometeorologia passou por várias fases no brasil. A primeira fase foi na década de 1960 e 1970, com o estabelecimento dessa área. Nessa época, a agrometeorologia deu suporte ao delineamento da agricultura brasileira. A segunda fase foi marcada pela evolução científica. Avançamos em estimativas de produtividade e índices biometeorológicos, aqueles índices que correlacionam as condições de tempo com o desenvolvimento das culturas agrícolas. Nos últimos cinco anos, estamos numa terceira fase, que é voltada para a aplicação desse conhecimento. Podemos chamar de agrometeorologia operacional, que é a transformação do dado meteorológico numa informação útil para o agricultor.

 

SF – De que forma os produtores podem se beneficiar dessa área de estudo?

Sentelhas

– O que o produtor precisa é melhorar a qualidade das suas tomadas de decisão. Ele precisa saber qual é o melhor momento para preparar o solo, a hora certa de plantar, quando deve aplicar os defensivos químicos. O produtor que irriga precisa definir uma série de detalhes de manejo da irrigação que dependem das informações meteorológicas. A agrometeorologia tem um propósito estratégico, relacionado ao planejamento da safra, para definir o manejo. Tem um propósito tático, porque ajuda a traçar estratégias que são ajustadas de acordo com o tempo. E agrometeorologia promove a resiliência, para lidar melhor com as adversidades climáticas.

 

SF – Poderia dar um exemplo prático de como a agrometeorologia poderia auxiliar os produtores?

Sentelhas

– Os produtores começaram a investir na cafeicultura adensada, por exemplo. Mas, sabemos que o menor espaçamento entre as plantas altera o microclima. Com as plantas mais próximas, há mais umidade e isso favorece a ocorrência de pragas. Existe uma grande correlação entre clima e a incidência de pragas e doenças. Há algumas que incidem mais com condições de tempo seco, outras pragas que preferem condições de tempo úmido. Então existem modelos meteorológicos específicos para fazer previsões. A agrometeorologia traz informações importantes que podem prevenir problemas como esse.

 

SF – A área é importante para a irrigação?

Sentelhas

– Sim, a irrigação depende muito das informações meteorológicas. A principal forma de manejar a irrigação é por meio do balanço hídrico, para determinar o volume de água que se deve irrigar. Quatro elementos meteorológicos são fundamentais para esse cálculo: radiação solar, temperatura do ar, umidade relativa do ar e velocidade do vento. Esses quatro elementos determinam a evapotranspiração das culturas e a necessidade de água.

 

SF – O Brasil oferece informações meteorológicas confiáveis?

Sentelhas

– O Brasil é um país de dimensões continentais. Para cobrir todo o território nacional, temos cerca de 600 estações meteorológicas do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). Esse número não é suficiente. Mas, apesar de não termos um grande número de estações, estamos bem melhor do que no passado. Antes dos anos 2000, o Brasil tinha cerca de 250 estações convencionais, que precisavam de um observador para realizar o registro manual das informações. Hoje temos estações automáticas que operam o tempo todo, com sensores eletrônicos que coletam e enviam dados por satélite, para a divulgação online. Houve uma evolução muito grande.

 

SF – As previsões não erram muito?

Sentelhas

– A atmosfera é um sistema caótico, extremamente dinâmico, que muda constantemente. Então não é possível ter 100% de acerto. A previsão mais confiável é para os próximos 15 dias. Quando maior o período, menor a confiabilidade das informações. Porém, se o Brasil tivesse mais estações, a probabilidade de acertar a previsão seria maior.

 

SF – Estamos atrasados em relação a outros países?

Sentelhas

– O nosso problema realmente é o número de estações. Enquanto no Brasil temos 600, os Estados Unidos têm mais de três mil estações. Então lá existe uma disponibilidade de dados muito superior. Mas, quando se fala em aplicação da informação meteorológica, não estamos atrasados. O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (Cptec) são centros de excelência, por exemplo. Outro exemplo é a Embrapa, que fornece dados por meio de uma plataforma online chamada Agritempo.

 

SF – Quais são as ferramentas disponíveis no mercado para o monitoramento?

Sentelhas

– O ideal é que o produtor pelo menos tenha termômetro e pluviômetro na fazenda. Mas, se ele quer entender de fato o que está acontecendo com a plantação, precisa ter uma estação. Há uma infinidade de marcas de estações meteorológicas no mercado, com preços variados. Uma boa estação automática custa em torno de R$ 15 mil reais. Só que isso não basta. É preciso ter um bom sistema que transforme os dados coletados em informação útil para o agricultor. Além disso, é preciso contar com uma empresa ou técnico especializado para fazer a manutenção desses equipamentos.

 

SF – Os equipamentos precisam evoluir?

Sentelhas

– Há tecnologias mais modernas que vão demorar um pouco para virar uma realidade no Brasil. Mas, as estações meteorológicas estão se popularizando e a tecnologia que temos atende bem o produtor. Na verdade, falta aprender a utilizar melhor os dados disponíveis. É preciso um melhor treinamento dos técnicos, agrônomos e produtores. A disciplina agrometeorologia é geralmente ensinada rapidamente e nos primeiros semestres do curso de Agronomia e há faculdades que nem oferecem essa disciplina. Isso precisa mudar. Acredito que em alguns anos teremos agrônomos com maior conhecimento nessa área.

 

SF – Qual é o papel do meteorologista e do agrônomo nessa área?

Sentelhas

– Existe uma clara distinção entre um meteorologista e um agrônomo que compreende a meteorologia. A função do meteorologista é entender como funciona a atmosfera e gerar dois produtos: a previsão do tempo e a previsão climática, informações que são extremamente importantes para a agricultura. Já a preocupação do agrônomo que se especializa em agrometeorologia é estudar como as condições climáticas interferem nas atividades agrícolas e pecuárias.

 

SF – De que forma o El Niño vai influenciar a safra 2015/2016?

Sentelhas

– A região central do Brasil está localizada numa zona de transição climática para as consequências do El Niño. A previsão é muito incerta para Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, São Paulo e o sul de Minas Gerais. O esperado é que o regime de chuvas fique dentro da normalidade, com chuvas bem distribuídas até março. Mas, tudo pode acontecer. Pode chover acima ou abaixo do normal nessa área. Para as outras regiões, existe uma tendência de chuvas acima da média nos Estados do Sul e abaixo do normal em boa parte da região Nordeste e Norte.

 

SF – Com as mudanças climáticas ficará cada vez mais difícil prever o clima?

Sentelhas

– O aquecimento global é uma questão bastante polêmica. A tendência de aquecimento vem se estabelecimento há anos. Os prognósticos indicam um aumento de temperatura de meio grau a seis graus Celsius. Mas há um grau de incerteza muito grande. A única forma de lidar com isso é se adaptar e minimizar os impactos do clima nas culturas. A agricultura aposta no melhoramento genético, com o lançamento de variedades que possam suportar o calor. As tecnologias e técnicas de manejo vão avançar para permitir essa adaptação.

 

* O professor Paulo Sentelhas é PhD em Agrometeorologia e professor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da Universidade de São Paulo, há 19 anos. Ele leciona no Departamento de Engenharia de Biossistemas.

 

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O nosso problema realmente é o número de estações. Enquanto no Brasil temos 600, os Estados Unidos têm mais de três mil estações. Então lá existe uma disponibilidade de dados muito superior. Paulo Sentelhas, professor de agrometeorologia da Esalq/USP