Parceria promove cultivo de ora-pro-nóbis no Paraná

Considerando um rendimento de um quilo por planta a cada colheita o agricultor teria uma remuneração mensal entre R$ 4 e 5 mil

Um contrato firmado entre a Embrapa Hortaliças e a empresa Proteios, da área de nutrição funcional, em janeiro deste ano, prevê o desenvolvimento de um sistema de produção de ora-pro-nóbis para facilitar a colheita e aumentar a produtividade da cultura no município de Palmeira, distante 80 quilômetros de Curitiba, capital do Paraná.

 

A empresa oferece para a indústria alimentícia e nutracêutica um produto denominado Complemento Nutricional Funcional (CNF), que é uma proteína vegetal em pó formada basicamente por folhas de ora-pro-nóbis, uma planta nativa do Brasil e rica em vitaminas, fibras e minerais. O produto é uma espécie de farinha que pode ser utilizada para enriquecer bebidas e alimentos como massas e barra de cereal. O principal destaque da composição nutricional do ora-pro-nóbis é a elevada concentração de proteína, que gira em torno de 28% da matéria seca.

 

A alta demanda pela farinha da proteína vegetal não conseguia ser atendida pelos 22 produtores que forneciam as folhas para a empresa, por isso, foi pensado em um arranjo produtivo com cerca de 400 agricultores familiares de fumo da região de Palmeira que viram no ora-pro-nóbis uma alternativa de cultivo e renda.

 

“Além do histórico dos produtores fumageiros em escoar a produção para a indústria em sistema de produção contratada, a experiência com secagem das folhas foi o grande diferencial para instalar um polo produtivo nessa localidade”, conta Nuno Madeira, pesquisador da área de Fitotecnia da Embrapa Hortaliças.

 

Como a cultura exige intensa mão-de-obra, devido à colheita trabalhosa por causa dos espinhos nas hastes com folhas, a proposta de trabalho adequa-se à agricultura familiar. Nesse sentido, o pesquisador está estudando um sistema de produção com podas sucessivas (que, inclusive, melhora a arquitetura da planta) em cultivos adensados em linhas duplas, para facilitar os tratos culturais e a colheita e, assim, ganhar escala de produção.

 

No sistema proposto, a lavoura fica com cerca de cinco mil plantas por hectare e, se considerar um rendimento de um quilo por planta a cada colheita, que acontece a cada dois meses, o agricultor teria uma remuneração mensal entre R$ 4 e 5 mil, dependendo da produtividade. A conta é essa: 2.500 quilos mensais de folha verde rendem por volta de 312 quilos de folhas secas, já que a proporção é de oito para um. O preço do quilo de folha seca gira em torno de R$ 16, logo a remuneração média do produtor é de R$ 5 mil.

 

“Nosso papel é testar hipóteses que possam melhorar a produtividade e a rentabilidade no cultivo de ora-pro-nóbis, mantendo os princípios de sustentabilidade ambiental, viabilidade econômica e equidade social”, diz Madeira ao destacar que a cultura é perene e dura pelo menos dez anos, mesmo com pressão por alta produtividade.

 

Como o produto industrial segue a proposta de uma alimentação saudável, as lavouras são conduzidas sem agrotóxicos, embora utilizem adubos solúveis e, por isso, não são certificadas como sistema orgânico de produção. “Com a evolução do plantio, os agricultores podem optar pela adubação dentro de preceitos orgânicos, já que a planta é rústica e plenamente adaptada às nossas condições”, diz o pesquisador, que também ressalta o fato do ora-pro-nóbis não ser muito suscetível a pragas e doenças.

 

Além do foco na produtividade, com testes que buscam analisar o número adequado de plantas por hectare e o melhor espaçamento entre plantas, as pesquisas também vão observar o uso de adubação verde antes do plantio e em consórcio com a cultura, para controle de plantas espontâneas, e diferentes tamanhos de mudas para estabelecimento da cultura no campo.

 

“A maior dificuldade desse trabalho é os agricultores se adaptarem ao manuseio de uma planta com muitos espinhos. Porém, espera-se desenvolver e/ou adaptar ferramentas para facilitar a colheita como, por exemplo, luvas específicas”, conta Madeira ao comentar que durante a desfolha das hastes cortadas não há problema em picar as folhas, pois isso facilita a secagem.

 

O Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) também está vinculado ao projeto de fomento do cultivo de ora-pro-nóbis no Paraná. O órgão adicionou a cultura na lista dos produtos financiados pelo Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), permitindo o custeio da lavoura. Além disso, há perspectivas futuras de instalar um polo de produção de ora-pro-nóbis no sertão do estado do Ceará, desde que sejam também estudados os sistemas de irrigação, já que a cultura exige um mínimo de água apesar de ser muito tolerante à seca.

 

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