José Renato Farias, diretor da Embrapa Soja

O nematoide é um dos grandes problemas para a sojicultura e que tende a ficar cada vez maior.

Darlene Santiago - DATA: 26/10/2015 Em entrevista, Farias fala sobre a incidência de nematoides nas lavouras de soja e como o produtor pode combater a praga

Os nematoides se tornaram uma preocupação frequente no campo brasileiro. Eles são pequenos parasitas, de difícil identificação e controle, que passam despercebidos em muitas plantações, mas que causam prejuízos crescentes. Há várias espécies de nematoide, que parasitam raízes, bulbos e tubérculos e prejudicam a produção de soja, milho, algodão, café, batata, feijão, hortaliças, entre outras culturas. Segundo José Renato Farias, diretor da Embrapa Soja, é preciso que o produtor fique atento e busque diagnosticar corretamente o problema.

 

Successful Farming Brasil – O nematoide é um problema invisível?

José Renato Farias

 – É um problema não tão invisível, mas que começa a aparecer devagarzinho e o produtor não dá bola. E aquilo começa a crescer de tal forma, que quando o produtor percebe a sua incidência, observa que o dano já é irreversível.

 

SF – Por que o produtor não diagnostica o nematoide com antecedência?

Farias

 – Por falta de conhecimento. O produtor muitas vezes não conhece a fundo o problema e, por isso, não sabe diagnosticar. Quando a incidência do nematoide é pequena, a perda é imperceptível. O produtor só percebe que o caso é grave quando a mancha começa a se alastrar na lavoura, só a partir daí que ele se preocupa e busca um diagnóstico correto.

 

SF – Quais são os sintomas causados pela praga?

Farias

 – A planta pode ficar raquítica e murchar ao longo do dia. As folhas apresentam manchas e a planta não se desenvolve direito. O sintoma depende do tipo de nematoide de ataca a soja e da intensidade de sua ocorrência. Geralmente, as manchas na plantação aparecem no centro da lavoura, em áreas que comumente não são visitadas pelo agricultor. Além disso, o produtor confunde aquele sintoma com alguma deficiência nutricional.

 

SF – O que o nematoide representa para a soja?

Farias

 – O nematoide é um dos grandes problemas para a sojicultura e que com certeza tende a ficar cada vez maior. Também é muito problemático porque criamos uma “ponte verde” com a safrinha. A safrinha de milho significa oferta de comida para a população de nematoide, então a praga continua se alastrando e crescendo de uma forma ainda mais intensa.

 

SF – A rotação de cultura não é positiva?

Farias

 – No caso do plantio de soja e de milho, não. A rotação de culturas é uma solução que ajuda muito no combate ao nematoide, mas é necessário plantar espécies que não são hospedeiras da praga. A rotação de cultura com a crotalária em áreas infestadas ajuda bastante no controle do nematoide, por exemplo.

 

SF – Mas é economicamente viável substituir o plantio de milho por crotalária?

Farias

 – O problema é justamente esse. O produtor não quer perder dinheiro. Mesmo com a incidência do nematoide, ele continua com o mesmo sistema de produção e não perde dinheiro no curto prazo. Porém, ele perde dinheiro no longo prazo quando a praga se alastra, deixa o solo contaminado e compromete a produção.

 

SF – Qual é a solução?

Farias

 – Fazer um monitoramento mais constante e sério. Usar novas ferramentas de controle e monitoramento, como o uso de drones para identificar áreas infestadas e isolar o quanto antes a área afetada pelos nematoides. O ideal é fazer um bom manejo de solo numa área pequena, de até dois hectares, e evitar que o problema se dissemine.

 

SF – A ferrugem asiática continua na lista de preocupações?

Farias

 – A ferrugem asiática continua sendo um sério problema, porque é uma praga muito agressiva e ainda não há variedades [de soja] com tolerância genética. O produtor se acostumou a usar sempre o mesmo fungicida e isso favorece cada vez mais a resistência dessa praga. Então, a gente logo vai ter uma menor disponibilidade de moléculas eficazes para o controle da ferrugem. Isso é um problema sério. É preciso usar o fungicida de forma consciente, quando há de fato o estabelecimento da doença.

 

SF – O vazio sanitário não combate a praga?

Farias

 – O vazio sanitário é de 60 a 90 dias, a depender da região. O problema é que a janela de cultivo da soja é muito grande. Isso é um habitat favorável para a disseminação da praga e o fungo da ferrugem viaja por até 800 quilômetros numa safra. Fica difícil controlar. É necessário buscar alternativas. Precisamos garantir a sustentabilidade do sistema produtivo para o longo prazo.

 

 

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O problema é que a janela de cultivo da soja é muito grande. Isso é um habitat favorável para a disseminação da praga. José Renato Farias, diretor da Embrapa Soja