DATA: 09/10/2015

Nova técnica permite obter plástico biodegradável em minutos

Materiais podem ser usados para empacotar biscoitos, chocolates, balas, entre outros produtos alimentícios

Películas finas biodegradáveis à base de substâncias naturais provenientes da agricultura e da agroindústria brasileira podem ser produzidas em menos de dez minutos por meio de um método inédito. O processo convencional costuma demorar pelo menos 24 horas e emprega aditivos para facilitar o processamento. Esses materiais, atóxicos e sem aditivos, podem ser usados para transportar compras de supermercados ou para empacotar biscoitos, chocolates, balas, entre outros produtos alimentícios. O novo produto foi desenvolvido no Laboratório de Nanotecnologia da Embrapa Instrumentação (SP).

Mediante essa técnica verde, batizada de casting contínuo, é possível fabricar folhas de plástico biodegradável em larga escala, com a transformação de formulações aquosas de substâncias naturais (como o amido e o colágeno) em películas finas de alta transparência.

Além do colágeno, é possível usar outras proteínas ou qualquer outro tipo de polissacarídeo, entre eles a quitosana – um polímero natural antimicrobiano encontrado no esqueleto de frutos do mar –, ou até mesmo amidos de diferentes fontes como o de mandioca, derivados de celulose e outras substâncias extraídas de coprodutos do beneficiamento de frutas.

Esses ingredientes, de acordo com o engenheiro de alimentos Francys Moreira, pós-doutorando da Embrapa, fazem a diferença na pesquisa, inédita no País. “Os plásticos são obtidos sem a necessidade de uso de aditivos de processamento, o que permite a obtenção de materiais atóxicos e seguros até para uso como embalagem que tenham contato direto com alimentos”, diz.

Além da vantagem de ser biodegradável, só com o domínio dessa técnica é possível produzir película de quitosana com elevada rapidez. Por outro processo, o tempo seria de pelo menos 24 horas. “Nossa técnica permite a obtenção de películas de proteínas e polissacarídeos, qualquer um deles, de forma muito mais rápida do que qualquer outra técnica conhecida. São seis minutos contra dias, que são gastos pelos métodos convencionais de fabricação”, afirma.

Os plásticos biodegradáveis são uma alternativa aos materiais sintéticos que, descartados na natureza, causam prejuízos ao meio ambiente, levando centenas de anos para se decompor, enquanto os chamados bioplásticos, que são obtidos de materiais naturais orgânicos, degradam-se rapidamente durante a compostagem.

Por isso, Moreira acredita que os setores agrícola, de embalagens de alimentos ou qualquer outro, podem usar essas películas biodegradáveis como uma forma de promover a sustentabilidade em seus processos produtivos.

Aprendizado

A Embrapa Instrumentação já vinha desenvolvendo estudos há 20 anos com polímeros naturais, como amidos termoplásticos, polímeros à base de zeína, quitosana, entre outros, como forma de inovar e agregar esses novos materiais no agronegócio brasileiro.

Graças a uma parceria entre a Embrapa e o Serviço de Pesquisa Agrícola dos Estados Unidos (ARS, sigla em inglês),  Moreira teve a oportunidade de aprimorar a técnica com a colaboração dos pesquisadores norte-americanos Tara McHugh, Roberto Bustillos e Donald Olson.

Os trabalhos envolvendo nanotecnologia também receberam apoio do pesquisador David Britt, que pertence ao The Molecular Foundry do Lawrence Berkeley Laboratory, também dos Estados Unidos.

Os cientistas americanos têm utilizado a técnica para produção de outros materiais, como plásticos comestíveis feitos a partir de purê de frutas. Mas Moreira explica que o aprimoramento e a expansão da técnica para a produção de plástico biodegradável é um tema inédito no Brasil e nos Estados Unidos.

 

Resultados

Os pesquisadores brasileiros Moreira e Mattoso lembram que, embora do ponto de vista científico e tecnológico os resultados já estejam bastante avançados, ainda há um caminho a ser percorrido para transformar a pesquisa em produto, que envolve processos de transferência de tecnologia e modelos de negócios a serem estabelecidos.

“Nesse momento, o importante são os resultados obtidos pela pesquisa, como o domínio da técnica em relação à produção de plásticos biodegradáveis, com controle de espessura altamente preciso e com uma faixa extensa de propriedades mecânicas a partir de qualquer tipo de polissacarídeo”, detalha Moreira.

Outra conquista apontada por ele é o aproveitamento total dos potenciais da nanotecnologia como forma de estender ainda mais o desempenho mecânico desses materiais.


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