dia internacional da mulher - agronegócio

Mulheres lutam para liderar e conquistar reconhecimento no agronegócio

Pesquisas indicam que as mulheres buscam mais cursos de capacitação para conseguir maior visibilidade e valorização no setor

As mulheres sempre atuaram no campo, mas nas últimas décadas conseguiram conquistar mais espaço e assumir cargos de liderança no agronegócio brasileiro. Pesquisas indicam que elas estão buscando cursos de capacitação para conseguir maior visibilidade e valorização nesse setor predominantemente masculino. O dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher, também provoca reflexão sobre a presença feminina no campo e desafios para o avanço profissional das mulheres.

 

De acordo com a pesquisa “Todas as Mulheres do Agronegócio”, que ouviu 862 mulheres de todo o Brasil em 2017, realizada pela Associação Brasileira do Agronegócio, essas profissionais gostariam de ter mais tempo para se capacitar em gestão empresarial e negociação. O estudo revelou que 56,8% estão interessadas em “gestão de pessoas”, 54,5% querem aprender sobre “gestão empresarial”, “finanças” é um tema de interesse de 33% das entrevistadas e 27,3% das mulheres do agronegócio se interessam pelo tema “negociação” (leia mais: mulheres do agronegócio querem aprender sobre gestão empresarial e negociação).

 

Mulheres na pecuária

A pecuarista Maria Vitória Proença, criadora de senepol, é um grande exemplo da força feminina no agronegócio brasileiro. Após se formar em técnica agropecuária, ela ingressou na faculdade de Zootecnia e acredita que se manter atualizada é o principal caminho para aumentar a presença feminina no setor. “A área agrária é muito masculina, eu tinha dúvida de como ia ser [a carreira profissional] e se eu iria gostar. Mas consegui me adaptar e gosto muito”, conta Maria Vitória. Atualmente cursando o 6° semestre de Zootecnia, ela acredita que o número de estudantes mulheres está crescendo.

 

Quando questionada sobre casos de machismo no campo, a resposta é que infelizmente ela vê isso com frequência. “Os homens são um pouco mais rudes nas explicações e na hora de fazer compra e venda eles não levam a gente tão a sério”, conta Maria Vitória. “Também tem aquele preconceito de achar que a gente não é capaz e tem medo de pegar no pesado.”

 

Grupos de apoio

Para tirar as mulheres da “invisibilidade” e valorizar a atuação delas no campo, estão surgindo grupos de apoio e intercâmbio de informações entre mulheres produtoras. Maria Vitória conta que participa de encontros de criadoras da raça senepol, como leilões e dias de campo. Além dos eventos presenciais, ela também faz parte de grupos de mulheres do agronegócio nas redes sociais, como o What’sApp.

 

Para ela, esse tipo de contato com outras produtoras é uma ferramenta importante, que tem uma função motivacional e facilita as tarefas diárias. “A gente usa o grupo para se integrar, dividir o nosso conhecimento, contar um pouco do que a gente faz e até para conseguir parceiros comerciais”, diz a pecuarista. “Quando participamos do grupo temos mais força, porque fica mais fácil do que ter que resolver tudo sozinha.” De acordo com Maria Vitória, a meta para este ano é participar ainda mais dos eventos presenciais de mulheres do agronegócio.

 

Sonhar e realizar

Com um criatório de dois anos, em Rio das Antas (SC), a pecuarista se prepara para multiplicar bovinos com o cruzamento entre senepol e caracu, red angus e limousin. O rebanho é composto de oito animais puros e 200 cabeças de animais cruzados. A trajetória da pecuarista está apenas no começo. “A partir de 2019, a gente vai avaliar os resultados do cruzamento dessas raças com o senepol”, conta Maria Vitória. Para quem pensa em seguir os caminhos da agropecuária, a dica é nãos desistir de ir em frente. “A gente nunca pode deixar de sonhar, se a gente pode sonhar a gente pode realizar”, afirma a criadora. “Trabalhando em grupo e se unindo a gente vai chegar mais longe.”

 

Conhecimento é o caminho

Embora o agronegócio tenha sido visto por muitos anos um setor representado por homens, hoje o cenário está mudando. Para a produtora rural e engenheira agrônoma Celi Webber Mattei, o conhecimento fez a presença feminina ganhar espaço. Formada em engenharia agronômica, ela atua na Sementes Webber, em Coxilha (RS), há 35 anos e divide a gestão da empresa familiar de igual para igual com os irmãos, outra mulher e um homem. “A medida que a gente vai adquirindo conhecimento e mais segurança, vamos mostrando nossa capacidade e jeito de ser, as coisas vão se modificando. Se você mostrar que tem firmeza nas decisões o problema [do preconceito] vai diminuindo”, diz Celi.

 

A pecuarista Maria Vitória Proença reforça a importancia do conhecimento e defende que a melhor forma de lidar com essas situações é ter argumento e se manter atualizada. “Hoje o conhecimento técnico é tudo”, afirma a pecuarista.

 

A competência da mulher

A produtora Celi Webber Mattei reconhece que o ambiente do agronegócio é prejudicado pela cultura machista, por isso defende que é importante a mulher mostrar suas competências. “Para mim foi difícil as pessoas entenderem que eu tinha uma capacidade que as vezes elas não acreditavam”, conta a produtora. “Eu casei muito cedo, tive filhos cedo, teve a parte de ser mãe, de cuidar da casa, do marido, mas eu quis continuar trabalhando e deu para conciliar tudo.”

 

Atualmente, a Webber Sementes produz sementes de soja e milho comercial na safra de verão e no inverno sementes de trigo e cevada. Segundo a engenheira agrônoma, a produção anual de todas as culturas é de aproximadamente 11.228 toneladas. “Eu cuido dos projetos, faço a vistoria das lavouras e as indicações técnicas, mas também ajudo no escritório e na administração”, conta Celi.

 

Além das habilidades profissionais, que são essenciais em qualquer área, a produtora rural acredita que a mulher leva diferenciais e novas ideias para o campo. “Tem um pouco do olhar feminino, um olhar mais sensível para o desenvolvimento humano que vai mudando as coisas”, conta. Segundo ela, exemplo disso foi a criação de um projeto social da empresa que atende os funcionários e seus familiares. O objetivo é oferecer capacitação e envolver os colaboradores no negócio. Atualmente, a empresa tem 65 funcionários. “No momento que você leva qualidade de vida e conhecimento, eles se dedicam mais para o negócio dar certo”, conta Celi.

 

Empresa familiar

A empresa foi fundada pelo pai de Celi Webber e embora ele cuidasse dos negócios, a mãe sempre esteve envolvida nas atividades rurais. “Ela sempre atuou dentro das atividades da chácara, na produção de queijo, leite, hortifruti e na jardinagem. Mesmo parecendo que as mulheres não atuavam muito, na realidade elas já ajudavam bastante”, afirma Celi. “Eu aprendi que todo mundo tem o seu valor no negócio familiar, mas, no meu caso, foi com bastante esforço.”

 

Trator cor de rosa

Após a chegada de um trator cor de rosa na Fazenda Bordin em 2016, em de São Martinho da Serra (RS), Andressa Bordin se sentiu mais representada no campo (leia mais: agora é que são elas). A produtora rural inspirou muitas outras mulheres e ampliou suas atividades na fazenda. Agora, ela faz de tudo nas lavouras de arroz e soja. Desde arar a terra, plantar, aplicar defensivos químicos até colher, atividade que começou aprendeu a partir de 2015.

 

Como outras mulheres que atuam no setor, Andressa já ouviu que lugar de mulher não é na lavoura. Porém, como gosta do que faz, ela não só continuou no campo como também comprou um trator cor de rosa em sinal de empoderamento. O modelo P80 da LS Tractor não veio de fábrica na cor rosa, mas o desejo da produtora foi realizado com o envelopamento da máquina. “O trator foi um incentivo para mim, porque eu sempre gostei da lavoura e queria uma coisa diferente que não fosse só para os homens, mas que fosse para a mulher também”, conta Andressa.

 

Atuação feminina no campo

A produtora rural Carmen Perez também dá uma verdadeira aula de gestão na Fazenda Orvalho das Flores, em Barra do Garça (MT). A preocupação com o bem-estar e capacitação dos funcionários é o grande diferencial da gestão inclusiva que a produtora decidiu adotar na propriedade. Mensalmente, ela organiza palestras e cursos com o objetivo de capacitar os seus funcionários. Segundo Carmen, o objetivo é manter todos os colaboradores motivados. “Informação nunca é demais”, afirma a pecuarista.

 

Carmen herdou a fazenda do avô há quase duas década e acredita que o segredo do sucesso do negócio está nas pessoas. Feminina até no nome, a fazenda Orvalho das Flores abriga um rebanho de 1.500 matrizes para cruzamento entre nelore e aberdeen. “Eu quebrei uma barreira muito importante ao pedir uma chance para minha família, foi a oportunidade da minha vida e eu agarrei com todas as forças”, diz a pecuarista. “A primeira coisa que eu fiz [quando assumi o negócio] foi a integração dos funcionários e ficar próxima deles para entende o operacional da fazenda”, conta Carmen.”

 

Capacitação no agronegócio

As mulheres estão sendo incentivadas a empreender e liderar no campo. Um exemplo disso são os cursos oferecidos especialmente para elas, como a inciativa do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) em Santa Catarina. O Senar oferece o programa Mulheres em Campo, com o objetivo de desenvolver as habilidades femininas com cursos de gestão de negócios agropecuários.

 

Até o momento nove turmas já iniciaram no estado e outras sete estão previstas para o mês de março. Em 2017, foram realizadas 68 turmas e a expectativa, de acordo com a coordenadora estadual do programa, Nayana Setubal Bittencourt, é de que o número de turmas seja equivalente em 2018. “Os encontros reúnem até 15 mulheres em cinco módulos presenciais de oito horas cada totalizando 40 horas de atividades. São repassadas atividades teóricas e práticas a fim de demonstrar as inúmeras possibilidades de empreendedorismo no campo”, afirma a coordenadora.

 

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