Mario Pegorer, presidente da Abiarroz

Quem sempre paga a conta é o consumidor. A indústria vai produzir o arroz, agregar os custos que são inerentes ao processo, e vai repassar os custos.

Naiara Araújo - DATA: 04/01/2016 Pegorer faz uma análise do mercado brasileiro do arroz e explica como o projeto Brazilian Rice quer consolidar o País com um exportador do cereal

Mario Pegorer é presidente da Associação Brasileira da Indústria do Arroz (Abiarroz) há três anos, sendo que há 11 anos atua no setor. Em entrevista à Successful Farming Brasil, ele fala sobre as perspectivas do mercado do arroz nos próximos anos e como a possível quebra na próxima safra brasileira vai afetar os negócios.

 

O presidente também conta as perspectivas para o programa Brazillian Rice, que começou em 2013 com a missão de apresentar o arroz brasileiro ao mercado internacional e incrementar as exportações. Em parceria com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil), a Abiarroz renovou o convênio Brazilian Rice no ano passado, que agora valerá até 2017.

 

SF – Quais são as previsões da Abiarroz para o consumo mundial de arroz?

Pegorer –

Nós não vemos tendência de variação no consumo mundial de arroz. A China, por exemplo, que consome 30% do arroz mundial, tem crescimento populacional estável e tem mudanças no hábito alimentar, assim como acontece aqui no Brasil. O que nós observamos é que vai haver uma mudança na comercialização do arroz. O mundo consome entre 650 e 700 milhões de toneladas de arroz, deste total, somente 36 milhões são para o comércio internacional. A maioria do arroz consumido é produzido no mesmo país. Nós vamos manter os mesmos números de produção mundial, porém vai haver uma mudança no quadro dos comercializadores.

 

Successful Farming Brasil – O Brasil sempre foi um importador de arroz, como foi que o país inverteu essa lógica e passou a exportar?

Mario Pegorer –

O mercado brasileiro de arroz é um mercado grande, nós consumimos muito arroz. Ao longo de muitos anos, nós sempre tivemos déficit de produção e sempre importamos de outros mercados, principalmente de países do Mercosul. Nos últimos 15 anos, começou um processo de pesquisa de novas variedades que aumentou muito a produtividade, principalmente do arroz gaúcho. Com esse aumento, começou a sobrar no estoque. Como em alguns mercados, como São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e o Nordeste, a importação do arroz tem uma condição de logística melhor do que comprar arroz no Rio Grande do Sul, começou a sobrar o produto gaúcho, que buscou espaço no mercado externo.

 

SF – Atualmente, como está a balança comercial do arroz no Brasil?

Pegorer –

O Brasil consome 12 milhões de toneladas de arroz. Se avaliarmos o histórico dos últimos dez anos, nós exportamos a mesma quantidade que importamos. Estamos com a balança equilibrada. A expectativa para o próximo ano é de que nós faremos a exportação de um milhão de toneladas e vamos importar um milhão de toneladas.

 

SF – O Brazilian Rice surgiu para resolver quais problemas da cadeia?

Pegorer –

Surgiu para organizar melhor a Comunicação do arroz brasileiro no exterior e atrair novas empresas para escoar esse excedente de produção que temos. Nós estamos resolvendo vários problemas. Escoando a produção, a gente melhora a remuneração do produtor aqui no Brasil, porque assim temos uma demanda e oferta mais equilibrada.

 

SF – Como era o processo de exportação antes do Brazilian Rice?

O Brazilian Rice surgiu como uma forma de promover o arroz brasileiro no mercado internacional de uma forma estruturada. Antes do projeto, nós tínhamos várias empresas que já exportavam, mas cada uma trabalhava de forma independente. Foi uma oportunidade de reunirmos os esforços das empresas brasileiras que já estavam exportando e também uma forma de incentivar outras empresas a entrar no mercado de exportação.

 

SF – Quais foram os principais resultados do projeto na primeira fase?

Pegorer –

O nome Brazilian Rice já começa a ser reconhecido em vários mercados, isso é uma conquista que a gente considera importante. Além disso, a visibilidade que estamos dando para o arroz brasileiro, porque pouca gente sabia que o Brasil era um exportador de arroz. Temos exemplos de empresas que nunca exportaram e que agora estão conseguindo fazer negócios. Algumas já criaram seu próprio departamento voltado para o comércio internacional. Cada dia temos mais empresas nos procurando.

 

SF – Para quantos mercados o Brasil está exportando a partir do Brazilian Rice?

Pegorer –

Quando nós iniciamos o projeto, em 2013, as empresas que estavam com a gente no início atendiam 36 mercados. Agora, nós estamos atingindo 41 mercados.  De janeiro a dezembro de 2014, por exemplo, nós representávamos 24% das exportações do setor. Em 2015, esse número subiu para 35%. O grande volume do mercado é exportado por tradings, o nosso foco não são grandes volumes, são pequenos negócios, de cinco ou dez containers.

 

SF – Quais são os principais países compradores do arroz brasileiro?

Pegorer –

Principalmente o Peru, Estados Unidos, Arábia Saudita e Angola. Eu diria que 40% do nosso volume estão concentrados nesses quatro mercados.

 

SF – Qual o diferencial do negócio que vocês vêm fazendo?

Pegorer –

Temos um trabalho mais especializado. Exportamos arroz em sacas de 50 quilos com a marca do cliente e já temos empresas no projeto que estão com as suas marcas consolidadas em alguns mercados.

 

SF – Quantas empresas estão ativas no projeto atualmente?

Pegorer –

Hoje nós estamos com 31 empresas.

 

SF – Vocês estão mais focados em abrir novos mercados ou melhorar os negócios com os países que já importam?

Pegorer –

A ideia é fortalecer os mercados onde nós já estamos. Dada a situação econômica do País, a gente está percebendo que investir para abrir novos mercados vai ficar muito caro para as empresas nesse momento.

 

SF – As metas definidas para 2015 foram alcançadas?

Pegorer –

Para o ano de 2015, nós estabelecemos a meta de 100 milhões de dólares. Não vamos alcançar esse número, mas vamos ficar bem próximos disso. A gente pretende aumentar esse volume em torno de uns 20% em 2016, mas o resultado depende da produção de arroz na próxima safra e da influência do fator cambial. Isso tudo acaba influenciando na nossa competitividade no mercado internacional. Existe uma expectativa de quebra de safra para o próximo ano, que pode chegar a 12%, a depender do comportamento das lavouras nos próximos 90 dias. Após esse período, vamos saber se conseguiremos esse crescimento de 20% e chegar a 120 milhões de dólares ou se vamos ter um recuo.

 

SF – Como que a provável quebra de safra poderá afetar o mercado?

Pegorer –

Se a quebra de safra for muito grande, o Brasil vai acabar importando bastante arroz, mesmo com o dólar valorizado. O Brasil passa a ser atraente para os países do Mercosul venderem. Caso a quebra seja pequena, o arroz vai continuar como a gente tem visto. Independentemente do cenário, o País permanece exportando, pois existem mercados que adotaram o arroz brasileiro como indispensável.

 

SF – Quanto foi exportado pelo projeto em 2015?

Pegorer –

Em torno de 190 mil toneladas de arroz.

 

SF – O mercados de produtos derivados do arroz podem crescer?

Pegorer –

Estamos tentando atrair empresas que desenvolvam outros produtos a partir do arroz. Isso não existe muito no Brasil, trabalhamos pouco com os derivados aqui. A gente vê por aí macarrão, biscoito, a utilização da farinha do arroz em vários alimentos, valorizado por ser um produto sem glúten. Temos visto também leite feito com arroz. O mercado externo é bom para esse tipo de produto.

 

SF – O que falta para elevar a produção de derivados do arroz no Brasil?

Pegorer –

Eu acho que falta pesquisa, falta investimento para desenvolver o subproduto do arroz, agregar valor e desenvolver novos mercados. Como nós comemos muito arroz, as empresas sempre focaram em vender o arroz como nós conhecemos, para o consumo direto. O nosso mercado sempre foi muito grande, e até por isso muitas empresas não se interessam pelos derivados e pelo mercado internacional, porque o mercado interno é grande.

 

SF – Então as empresas estão acomodadas porque o consumo doméstico é alto?

Pegorer –

Sim, o mercado interno é grande, mas agora que está ficando um pouco mais difícil. O consumo per capita no Brasil diminuiu nos últimos anos, então, as empresas estão perdendo o fôlego. Hoje, a estimativa de consumo no Brasil está em torno de 35 quilos de arroz per capita por ano. O consumo é baixo. Os peruanos, por exemplo, consomem 75 quilos per capita por ano e, em Cuba, o consumo é de 120 quilos de arroz per capita por ano.

 

SF – Mas se o arroz é a base da alimentação do brasileiro, porque o País consome menos?

Pegorer –

O brasileiro já incorporou outros hábitos [de consumo], já que o poder aquisitivo aqui é maior. A renda da população brasileira aumentou nos últimos anos e isso acabou agregando outros hábitos de consumo no dia a dia. As pessoas agregaram pizza, hambúrguer e o próprio aumento no consumo de saladas. Em Cuba, o que tem pra comer é arroz, não tem outra coisa.

 

SF – Existe alguma estratégia para aumentar o consumo per capita?

Pegorer –

O que falta é uma campanha para promover o arroz, mas falta verba para a nossa associação fazer alguma coisa nesse sentido. É necessário trabalhar mais a questão de alimento saudável para aumentar o consumo.

 

SF – Quais as perspectivas para o mercado das outras variedades de arroz, como integral, arbóreo e preto?

Pegorer –

O arroz integral tem um apelo muito forte em relação à saúde. Os médicos têm indicado muito para quem tem diabetes, para quem pratica exercícios físicos e para quem quer ter uma rotina mais saudável. Esse mercado está crescendo e eu acredito que essa é a tendência. Sobre outros tipos de arroz, como arbóreo, basmati, jasmine, preto e vermelho, esses são nichos de mercado. Esses produtos crescem na medida em que aumenta a renda, as pessoas passam a conhecer a culinária de outros países e se identificar mais com esse mundo gourmet. Quando o País retomar o crescimento econômico, eu acredito que esse mercado vai crescer.

 

SF – Quais regiões do País têm maior potencial de crescimento de produção?

Pegorer –

Eu não vejo muitas regiões do Brasil com potencial de crescimento. Eu acredito que o País já definiu as áreas de produção de arroz e pode haver até redução dessa área. O que pode ocorrer é o desenvolvimento de novas sementes que aumentem a produtividade na mesma área plantada e nas mesmas regiões produtoras, sendo o Rio Grande do Sul o destaque.

 

SF – A crise econômica e política que o Brasil está vivendo é uma ameaça para o setor?

Pegorer –

É uma ameaça pela instabilidade no País. Você tem aumento de custo interno, falta de competitividade e a baixa produtividade na indústria nacional. A logística é cara porque não tem infraestrutura, a exportação é cara porque não temos portos preparados, toda hora tem greve e tudo isso impacta na exportação e no mercado interno.

 

SF – A indústria tem alguma estratégia para lidar com o aumento no custo de produção ou essa alta vai chegar ao consumidor?

Pegorer –

Nós podemos falar abertamente que quem sempre paga a conta é o consumidor. A indústria vai produzir o arroz, agregar os custos que são inerentes ao processo, e vai repassar os custos para o consumidor. Se a energia aumentou, eu não tenho como produzir a mesma quantidade de arroz com menos energia. Então, não tem como segurar esses aumentos de preço. Isso é uma coisa que de repente daqui a 10 anos nós vamos ter um aproveitamento de energia muito melhor do que nós temos hoje, mas essa transformação não ocorre da noite para o dia.

 

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Hoje, a estimativa de consumo no Brasil está em torno de 35 quilos de arroz per capita por ano. O consumo é baixo. Os peruanos, por exemplo, consomem 75 quilos per capita por ano e, em Cuba, o consumo é de 120 quilos de arroz per capita por ano. Mario Pegorer, presidente da Abiarroz