Fazenda Santa Cecília, com 66 hectares irrigados

Irrigação subterrânea é alternativa em tempos de crise hídrica

Com dificuldade para conseguir outorgas de água para uso de pivôs, produtor paulista investiu R$ 924 mil em tecnologia israelense

A crise hídrica que atinge o Estado de São Paulo desde 2014 tem sido um problema para os produtores rurais. Com a redução no abastecimento de água, é mais difícil conseguir licença para a captação, o que deve prejudicar a instalação de pivôs centrais. Por isso, os agricultores já buscam outras alternativas para irrigar.

 

O produtor Edemir Rubens Doná
O produtor Edemir Rubens Doná

O produtor Edemir Rubens Doná cultiva grãos em 2.500 hectares divididos em cinco propriedades, na região do município de Santo Antônio do Aracanguá (SP), 36 km de Araçatuba, e conta que há três anos deixou de irrigar com pivôs centrais pela dificuldade de conseguir licença para a captação de água. “Conseguir outorga é muita burocracia, hoje em dia não dá mais, ficou complicado”, diz.

 

Em busca de outra solução, Doná decidiu investir na irrigação subterrânea por gotejamento em uma de suas propriedades, a Fazenda Santa Cecília, de 130 hectares, onde foram plantados 66 hectares de soja na primeira quinzena de outubro. A tecnologia, implantada pela empresa israelense Netafim, é mais cara do que a irrigação por pivôs centrais, porém, ela promete consumir até 30% menos água e energia elétrica. Enquanto aguarda a colheita para avaliar os resultados da tecnologia, Doná já observou um ponto positivo. “Como não molha a planta, a irrigação subterrânea colabora no controle de fungos”, diz o produtor.

 

Salto na produtividade

O genro de Doná, João Ricardo de Castilho, é o responsável pela administração do negócio e está animado aguardando a colheita. Ele conta que registra uma produtividade de soja em áreas de sequeiro entre 54 e 60 sacas por hectare. Com a irrigação, a expectativa é de 90 a 100 sacas por hectare. “O nosso projeto começa com soja, mas vamos expandir para milho, tomate e feijão”, diz Castilho.

 

Para o milho safrinha, a previsão é de aumentar a produtividade, que é de 120 sacas por hectare em áreas de sequeiro, para 200 sacas por hectare na fazenda irrigada. Doná e Castilho investiram R$ 14 mil por hectare para implantar o sistema na Fazenda Santa Cecília. Eles esperam recuperar esses R$ 924 mil em até quatro anos.

 

Castilho conta que quando planta soja sem irrigação, ele aplica apenas uma cobertura de fertilizantes mas, agora, com o sistema, é possível adubar o solo toda vez que irrigar. “Dá para aplicar nutrientes de cinco a seis vezes durante o ciclo”, explica. Para complementar a captação de água, serão construídos dois poços artesianos com capacidade para 150 metros cúbicos por hora e um tanque de dois milhões de litros. Atualmente, o produtor tem outorga para utilizar 30% da lâmina da água de um rio próximo da propriedade.

 

De acordo com relatório da Agência Nacional de Águas (Ana), a irrigação é responsável por 72% do consumo de água no Brasil. Há 17.878 pivôs centrais, que irrigam 1,18 milhão de hectares. Os números representam um aumento de 32% em comparação com a pesquisa anterior, de 2006. No entanto, com a crise hídrica, principalmente em São Paulo, é possível que o setor não mantenha esse ritmo de crescimento.

 

Irrigação subterrânea
Irrigação subterrânea

A tecnologia

A irrigação subterrânea por gotejamento é uma tecnologia popular nas lavouras de café e de citrus, que agora passa a ser adotada por produtores de grãos. De acordo com Carlos Sanches, gerente agronômico da Netafim, o método é um dos mais modernos em automação e nutrição de plantas.

 

O sistema custa até 30% mais caro quando comparado com outras opções oferecidas no mercado e eleva a produtividade das lavouras na mesma proporção. Mas, o diferencial da irrigação subterrânea é oferecer 95% de eficiência, o que se traduz em economia de água e de energia elétrica. “Não adianta o conceito ser muito bonito se não remunerar o reprodutor”, diz Sanches. “A cada 100 litros aplicados, 95 litros chegam à planta.”

 

Outra vantagem, segundo Sanches, é que o sistema oferece acesso remoto. Com isso, o produtor pode alterar a programação de adubação e acompanhar os níveis de umidade do solo via computador ou celular. O sistema tem vida útil de 15 a 20 anos.

 

Além de incentivar a adoção da tecnologia em lavouras de grãos, a Netafim vai focar no arroz em 2016. De acordo com Sanches, a área experimental da cultura já duplicou. “A inundação é uma técnica primitiva”, diz Sanches. “Quando começar a irrigação por gotejamento subterrâneo será uma revolução”. A empresa encerrou o ano passado com quatro projetos de grãos e cana-de-açúcar e vai terminar 2015 com 20 projetos.

 

* A repórter viajou a convite da Netafim.

 

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