Hotel reaproveita lixo orgânico para produzir adubo e hortaliças

Projeto que valoriza a compostagem e o cultivo de alimentos em hortas urbanas está se popularizando em São Paulo

É inimaginável que um luxuoso hotel de São Paulo tenha espaço para terra, adubo, mudas e produção de alimentos. No entanto, essa possibilidade inusitada está se tornando uma realidade em hotéis e restaurantes da capital paulista. Entre os exemplos está o hotel Grand Hyatt São Paulo, que desde março de 2015 está investindo na agricultura urbana. A iniciativa permite reaproveitar o lixo orgânico gerado pelo hotel para produzir adubo, que é aplicado numa horta no local. Depois, os alimentos colhidos voltam para as mãos dos chefs de cozinha do restaurante do hotel e são servidos aos hóspedes.

 

A prática sustentável surgiu a partir do trabalho do Instituto Guandu, criado pela jornalista Fernanda Danelon. Ela é a responsável pelo projeto que gerencia hortas e reaproveitamento de lixo orgânico em 14 restaurantes da cidade, três do Grand Hyatt. Segundo Fernanda, o lema do instituto é fazer a comida ir do prato ao prato. “A gente pega o lixo, abre, destrincha e o transforma em alguma coisa útil”, diz ela.

 

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O Intituto Guadu produz ervas e temperos, como capuchinha e ora-pro-nóbis


Além da produção de alimentos, o projeto evita que toneladas de lixo sejam levadas para os aterros sanitários, segundo Guillaume Paupy, gerente do Grand Hyatt. “Atualmente, 100% dos resíduos orgânicos vão para a compostagem”, afirma. “A coleta seletiva é muito importante para todos do Grand Hyatt, faz parte de nossa filosofia trabalhar de maneira sustentável”, diz. Outra vantagem é observada na cozinha. “O benefício mais importante é ter sempre ingredientes frescos e saborosos nos pratos”, diz Thierry Buffeteau, chef executivo responsável pelos restaurantes do hotel.

 

O nome Guandu foi inspirado no feijão-guandu, espécie que chegou ao Brasil trazida pelos escravos africanos e se adaptou ao clima, principalmente no Nordeste. Fernanda Danelon explica que esse feijão é usado para recuperar solos degradados e por isso também é conhecido como adubo verde. Generoso, ele não precisa de muita água ou adubação e produz quase o ano todo. Assim como o feijão Guandu se difunde como um produto sustentável, Fernanda quer multiplicar a sua ideia de compostagem por todo o Brasil.

 

A novidade está despertando o interesse de cozinheiros que compram alimentos orgânicos, que se preocupam com o descarte de lixo e buscam uma solução ambiental. A compostagem é a solução ideal, mas requer investimento. Segundo Fernanda, um restaurante de 50 lugares gasta, em média, R$ 905 por mês para investir nesse tipo de projeto. As tecnologias de compostagem utilizadas pelo instituto processam até 100 quilos de lixo a cada 30 minutos. “A gente achou que o campo era uma coisa distante, mas isso está mudando”, afirma. “A tendência é que tenha mais campo na cidade.”

 

Apesar de o hotel ter a sua horta, nem todos os clientes do Instituto Guandu seguem a mesma rotina. Fernanda oferece duas opções, a montagem da horta no próprio estabelecimento ou a coleta de lixo orgânico em dias úteis e a produção de adubo e alimentos no Instituto Guandu. Lá, são produzidas ervas e temperos, como capuchinha, pimentas e ora-pro-nóbis, por terem ciclo curto de cultivo e rápido retorno econômico.

 

Outra iniciativa do Instituto Guandu é a doação do adubo fabricado para produtores orgânicos que estão em um raio de até 50 quilômetros de São Paulo. Com isso, Fernanda cria uma rede de agricultores que podem se tornar fornecedores dos restaurantes.

 

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