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Boas práticas de governança corporativa ganham força no agronegócio

Para que a fazenda seja sustentável no longo prazo, os gestores precisam profissionalizar o negócio e proteger a empresa familiar

A governança corporativa pode ser a resposta para resolver alguns conflitos no campo. Quando diferentes gerações lideram a fazenda, os mais jovens geralmente querem adotar novas tecnologias enquanto que os mais velhos, em muitos casos fundadores do negócio, não querem abandonar práticas tradicionais. Uma frase resume bem esse impasse: “sempre deu certo desse jeito, por que agora não vai dar?”. E o dilema parece ficar longe de ter solução.

 

Para tomar as melhores decisões e resolver esse tipo de conflito é que existe a governança corporativa. Esse conceito não tem como objetivo agradar aos mais jovens ou aos mais velhos. Trata-se de um conjunto de boas práticas de gestão com o objetivo de profissionalizar a fazenda e proteger a empresa familiar, além de pensar no futuro do negócio e na sucessão da gestão. O benefício da adoção da governança corporativa não é só interno, já que essas boas práticas são valorizadas no pós-porteira por fornecedores de crédito, insumos e compradores do setor.

 

Governança no agronegócio brasileiro

Para Daniela Sampaio, gerente de consultoria do rural banking do Rabobank, em termos de maturidade de governança, o Brasil ainda está atrasado. “Estamos entrando nesse processo agora porque o agronegócio de escala no Brasil começou a ganhar força na década de 70 e 80”, explica a gerente. Por isso, ela acredita que essa geração que está chegando é a primeira que demanda capacitação sobre sucessão familiar e governança. Segundo ela, as boas práticas de governança são bem vistas fora da porteira. “Um bom cliente reduz os riscos de carteira [para o banco].”

 

O advogado Alexandre de Marco, produtor rural e gerente-executivo do Grupo BDM, está implementando a governança e não tem dúvidas ao recomendar essa reorganização dos negócios. “A governança é você ter a diretriz do negócio na sua mão. É uma grande ferramenta para você tomar a decisão no rumo certo”, diz o gerente-executivo. “Também é uma forma de mostrar para o mercado que temos um nível de organização satisfatório.”

 

O que é a governança corporativa?

Três pilares sustentam a governança corporativa: planejamento, transparência e comunicação. Para a gerente Daniela Sampaio, a partir dessas boas práticas é possível proteger o patrimônio conquistado, as finanças e a família. “Essas regras funcionam para não deixar a família destruir a empresa e nem a empresa destruir a família”, afirma a consultora.

 

O campo mais corporativo

A atividade agrícola do Grupo BDM começou em 1979. Atualmente, são sete fazendas responsáveis pela produção de 39 mil toneladas de soja, milho e algodão por safra. Com o crescimento do negócio, os proprietários da fazenda começaram se preocupar com os rumos da atividade e há dois anos começaram a aderir ao conceito da governança corporativa.

 

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Alexandre De Marco, gerente-executivo do Grupo BDM

Quem começou a implementar as boas práticas de governança no Grupo BDM foi Alexandre De Marco, que após concluir a faculdade de direito voltou para trabalhar na empresa agropecuária da família, comandada inicialmente pelo pai e pelo tio. Atualmente, ele ocupa o cargo de gerente-executivo do Grupo BDM. “Fomos tomando um tamanho em faturamento e em complexidade que foi obrigatório procurar se organizar e padronizar os processos”, diz De Marco.

 

O fato de já trabalhar na gestão do grupo fez com que a proposta de implementar a governança fosse aceita pelos donos do negócio com facilidade. “Tive sorte ao passar essa necessidade para o meu pai e o meu tio e não ser um processo traumático”, afirma De Marco. “Apesar de ser um procedimento a longo prazo, já é possível constatar resultados positivos, principalmente na transparência dos processos e na comunicação entre os colaboradores.”

 

Ele conta que, antes de iniciar as boas práticas de governança, a família estava totalmente distante do negócio. “Hoje nós temos mais dinamismo, temos mais confiança nos processos que a gente executa aqui dentro”, diz o gerente-executivo. “O avanço mais forte que a gente teve foi na sucessão familiar, de desenhar e envolver toda a família para pensar efetivamente no futuro.”

 

Governança na primeira geração

A governança corporativa está se popularizando nas fazendas brasileiras e agrada produtores de diferentes gerações, inclusive os fundadores da fazenda. Um exemplo disso é o Grupo Botuverá. Nessa família, quem buscou os primeiros passos da governança foi Adelino Bissoni, que é da primeira geração da empresa.

 

Junto com quatro irmãos, Bissoni começou os negócios em 1975 e administra o grupo até hoje. Na área agropecuária, os irmãos Bissoni têm quatro fazendas que produzem 32 mil hectares de grãos. Assim como o negócio, a família cresceu nas últimas décadas. Atualmente, entre filhos e sobrinhos, a empresa tem 12 herdeiros – sendo que oito já trabalham no Grupo Botuverá. Com essa expansão, o patriarca sentiu a necessidade de organizar os negócios de forma mais profissional.

 

Bissoni envolveu toda a família no processo de implementação da governança corporativa no Grupo Botuverá, processo que começou há quatro anos. Vicente Bissoni Neto, diretor administrativo e financeiro do Grupo Botuverá, atualmente é um dos herdeiros envolvidos na implementação das novas práticas de gestão.

 

Para Bissoni Neto, o interesse dos tios e do pai nesse momento reorganização do negócio foi fundamental. “Tudo fica muito mais fácil quando a primeira geração realmente está disposta a fazer o processo da implementação da governança corporativa. É fator chave de sucesso que eles estejam realmente engajados.”

 

Mudança positiva

Para Bissoni Neto, quanto mais transparência nas regras, que é o que a governança traz, mas fácil a gestão fica no dia a dia. Esse fator melhora a gestão dos números e os resultados da empresa. “Exige muita disciplina, tanto da família como dos gestores e acionistas, mesmo que soe redundante, repetitivo e que pareça desnecessário no primeiro momento”, diz Bissoni Neto.

 

Desde o início do processo de mudança até agora, a principal dificuldade, segundo ele, foi a sobreposição de papéis. “É difícil segregar papéis e dizer que nesse momento eu sou um gestor, no outro momento eu sou acionista, num terceiro momento eu sou membro da família e não misturar esses ambientes e assuntos”, diz o diretor. Segundo ele, a orientação para quem está nessa situação é estudar as boas práticas de governança o quanto antes. “A minha principal dica é para não esperar que o mal aconteça, que algo trágico aconteça na família ou que alguém queira se aposentar ou sair do negócio”, diz Neto. “O processo é demorado e demanda muita reunião e conversa.”

 

Vencendo as barreiras

Para De Marco, do Grupo BDM, a maior dificuldade ocorre no início do processo de mudança. “A gente acaba resolvendo muita coisa no dia a dia da empresa e acaba não dando importância para as coisas que precisam ser implementadas”, diz o gerente-executivo do Grupo BDM. Por isso, ele conta que a ajuda externa foi fundamental.

 

Ele contou com o auxílio da consultoria do Rabobank para definir cronogramas e as metas que precisavam ser cumpridas. “O comprometimento da família e dos colaboradores é maior com a presença de uma consultoria”, afirma De Marco. Para Daniela Sampaio, gerente de consultoria do Rabobank, o início é a fase mais complicada, mas também é o momento crucial para o sucesso da governança corporativa. “Querer é o primeiro passo e também a maior dificuldade. Implementar uma coisa nova exige mudança de comportamento”, diz a gerente.

 

6 dicas para implementar a governança corporativa no campo

 

1 – Empresa familiar

Segundo Daniela Sampaio, gerente de consultoria do Rabobank, poucas empresas conseguem sobreviver até a segunda ou terceira geração da família. Por isso que a governança corporativa é importante, o conceito é capaz de ajudar as empresas familiares do agronegócio a ter sustentabilidade no longo prazo. “A troca de poder na empresa familiar é crítica e pode prejudicar a longevidade e a sustentabilidade da produção agrícola”, diz Daniela. Outro ponto importante é evitar que o negócio seja dividido com após a saída de familiares da sociedade. “Ao dividir a operação agrícola entre os diversos familiares, o negócio volta a ser pequeno e hoje em dia é muito mais difícil crescer sozinho”, diz Daniela.

 

2 – Planejamento

Um dos grandes pilares da governança é garantir que a empresa familiar tenha planejamento. Segundo Daniela, é necessário que os familiares sócios da fazenda e seus herdeiros tenham uma visão de futuro em comum e, juntos, possam tomar as decisões do negócio. Além disso, os familiares devem estar cientes de que são aliados nos desafios e nos riscos futuros que eles vão tomar. “As regras na governança familiar não são para inibir os relacionamento ou causar burocracia. Elas funcionam como as regras de trânsito, para organizar, para que todo mundo tenha a sua vez e consiga chegar ao lugar desejado”, afirma a gerente.

 

3 – Transparência

Uma empresa que adota as práticas da governança corporativa consequentemente é mais transparente para os acionistas e para o mercado. “A questão da transparência demanda controle, demanda informações e agenda aberta”, diz Daniela. Além disso, segundo a gerente do Rabobank, a transparência do negócio é um atrativo para as empresas que fornecem insumos, créditos e outros serviços, pois gera confiança na empresa.

 

4 – Sucessão familiar

A sucessão familiar também faz parte do planejamento. Esse é um tema fundamental, que define como será o futuro da empresa. “Tem que planejar o futuro, a troca de poder, planejar o que vai acontecer com a situação patrimonial da empresa”, diz Vicente Bissoni Neto, do Grupo Botuverá.

 

5 – Comunicação

A Comunicação é muito importante. Quanto maior o negócio, melhor deve ser a Comunicação entre os gestores, acionistas e colaboradores. Segundo Bissoni Neto, fica inviável manter a mesma informalidade que existe numa comunicação familiar em casa para o ambiente dentro da empresa. “É necessário ter uma comunicação interna profissional”, diz Bissoni Neto.

 

6 – Consultoria externa

O acompanhamento de uma consultoria faz a diferença na implementação de governança. Isso ajuda a separar as emoções das relações familiares das decisões nos negócios. “Por mais que a família tenha um bom relacionamento, por mais que a relação seja excelente, quando você aborda assuntos que são delicados, e isso é trazido por um membro familiar, sempre tem uma visão diferente de quando é uma pessoa neutra, imparcial, trazendo essa informação”, diz Bissoni Neto.

 

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