Pará ganha participação na produção nacional de cacau

O crescimento da cultura no Estado se dá não apenas em relação à produção, mas também pela qualidade das amêndoas

Mais de 90% do cacau produzido no Pará seguem para parques industriais instalados na Bahia, Espírito Santo, São Paulo e Rio Grande do Sul, onde são transformados em cosméticos, doces, balas e chocolate. O Estado tem quase 160 mil hectares de área plantada e o crescimento se dá não apenas em relação à produção, mas também na qualidade das amêndoas beneficiadas. “O cacau paraense possui um teor de 57% de manteiga do cacau, enquanto o da Bahia não chega a 52%. Em termos de qualidade, ele se iguala ao padrão do mercado internacional, como o cacau de Gana, na África”, explica Luiz Pinto, diretor de Agricultura Familiar da Secretária de Estado de Desenvolvimento Agropecuário e da Pesca (Sedap).

 

O Estado é o segundo maior produtor de cacau do país, atrás somente da Bahia, responsável por mais de 50% da produção. Entre os municípios paraenses que se destacam no plantio do fruto está Medicilândia, na região da Transamazônica, zona que concentra 77% do cultivo estadual. De acordo com a Sedap, na última safra foram produzidas mais de 105 mil toneladas de amêndoas secas. “Registramos um crescimento de mais de 11% e esse montante nos coloca como segundo maior produtor de cacau do Brasil. A nossa expectativa para 2016 é alcançarmos 120 mil toneladas”, calcula Luiz Pinto.

 

A cacauicultura é uma alternativa para o desenvolvimento sustentável na Amazônia em função do seu baixo custo produtivo e da utilização de sistemas agroflorestais. Além disso, há uma forte presença da agricultura familiar. “É importante manter o agricultor no campo, produzindo, ganhando dinheiro com a família, sendo o gestor de seu próprio negócio. Hoje, 86% das propriedades cacaueiras do Estado são de base familiar, o que dá uma estabilidade produtiva muito forte. O mesmo não acontece na Bahia, onde você tem áreas em que os proprietários moram fora do lote”, explica o diretor.

 

Investimento

Em 2011, o governo do Estado colocou a produção cacaueira como atividade prioritária em sua política agrícola e, em parceria com a Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac), criou o Programa Estadual de Desenvolvimento da Cadeia Produtiva do Cacau (Prodecacau). A iniciativa conta com o subsídio do Fundo de Apoio à Cacauicultura do Pará (Funcacau), recurso proveniente da própria comercialização do fruto, que possibilita o desenvolvimento de ações fundamentais para a expansão, modernização e consolidação da atividade.

 

Com o projeto, a Sedap aposta que até 2019 o Pará estará no topo da produção nacional. “Nosso principal concorrente produziu na safra anterior 140 mil toneladas. Este ano, a primeira estimativa da produção paraense infere uma safra de cerca de 120 mil toneladas, enquanto a Bahia alcançará o mesmo resultado da safra paraense de 2015. Se continuarmos assim, em breve vamos ser os primeiros do Brasil. O Prodecacau desenhou essa meta e estamos trabalhando para isso”, disse o representante da Sedap.

 

Além do fruto, o governo do Estado também incentiva a verticalização da produção. Atualmente, o Pará conta com cinco plantas industriais localizadas em Medicilândia, Benevides, Santa Bárbara e Belém. Outras duas, uma em Tomé-Açu e outra em Novo Repartimento, estão em fase de projetamento. As indústrias produzem chocolate ao leite, meio amargo e amargo, além de manteiga de cacau, direcionada, principalmente, à produção de cosméticos e chocolate branco.

 

Uma dessas fábricas é a CacauWay, que entrou em atividade em 2010, no município de Medicilândia. O projeto surgiu da união de agricultores familiares que deu origem à Cooperativa Agroindustrial da Transamazônica (Coopatrans). Sua base traz como princípios a preservação do meio ambiente, a permanência e o bem-estar do homem no campo e a agregação de valor a partir do melhoramento da amêndoa utilizada na produção.

 

No final de 2015, a fábrica ganhou uma usina de extração de manteiga de cacau, que vai permitir a introdução de novos derivados dentro da linha de produção da própria indústria. O equipamento foi adquirido por meio do Funcacau. A indústria ganhou ainda um espaço para fermentação das amêndoas, uma parceria com o Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade do Pará (Ideflor-Bio).

 

O Estado também promove eventos que destacam a produção local como o Festival Internacional de Chocolate e Cacau da Amazônia, em Belém, que em sua 3º edição, em 2015, reuniu quase 30 mil pessoas, com participantes da Colômbia, Bolívia, Venezuela, França e Índia. A feira também contabilizou quase R$ 6 milhões em vendas e premiou os produtores das melhores amêndoas do evento, entre elas as paraenses, com a participação em festivais internacionais, a exemplo do Salão do Chocolate de Paris.

 

Desenvolvimento da região 

O cacau é um produto fundamental para a geração de emprego e renda, e sua atividade já transformou a vida de milhares de famílias no Estado. Segundo indicadores da Sedap, em 2015 o setor gerou cerca de 40 mil empregos diretos e 100 mil indiretos. Entre os que participam dessa cadeia está o agricultor Antônio Luiz Rodrigues da Silva, que saiu do município de Bacabal, no Maranhão, em 2001, com a esperança de dias melhores. “Eu sou da parte sofrida do Maranhão e, para ganhar o pão de cada dia, era complicado. Quando cheguei aqui a lavoura de cana estava bem desenvolvida, mas logo acabou. E como já tinha muita plantação de cacau, parti para trabalhar com essa produção, e continuo com ela até hoje”, explicou o agricultor.

 

As mãos calejadas de seu Antônio são resultado de sua atividade como “meeiro”. Ele toma conta de cerca de cinco mil pés de cacau em um sítio localizado às margens do Km 92 da Rodovia Transamazônica, e toda a renda proveniente da colheita é dividida com o proprietário da terra. Mesmo diante da rotina árdua, ele não reclama, ao contrário, diz que a oportunidade de trabalho transformou sua vida. “Fui um cara muito incerto, tive problemas com álcool, mas um amigo me estendeu a mão. Comecei a trabalhar com o cacau e ganhei conhecimento e a confiança dos produtores da região”, contou.

 

 

 

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