Brasileiro não deve abrir mão do cafezinho em tempos de crise

Preços do café no varejo cresceram mais de 13%, mas consumo não deve recuar em 2016 e empresas planejam investimentos

O crescimento da inflação, que causa um aumento generalizado nos preços dos produtos e reduz o poder de compra do brasileiro, não poupou o café, uma das bebidas mais consumidas no País. O café em pó, que tem a maior participação no mercado nacional, teve um aumento de preço de 13,19% entre fevereiro do ano passado e fevereiro de 2016, de acordo com o levantamento do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) realizado pelo IBGE. Hoje, o consumidor paga entre R$ 8,90 e R$ 40,59 (*) em 500 gramas de café moído, a depender da escolha da marca. Mas, na contramão da crise, o mercado cafeeiro não prevê queda no consumo e muitas empresas planejam investimentos para 2016.

 

O café gourmet Santa Monica, por exemplo, está lançando cápsulas de café orgânico, que devem chegar ao mercado ainda neste mês custando R$ 1,80 (por unidade), enquanto o café gourmet tradicional da marca custa, em média, R$ 1,50. “Ampliamos nosso foco, chegando agora até o consumidor final”, afirma Marcelo Moscofian, diretor do Café Santa Monica, que inicialmente atendia com maior intensidade o mercado de foodservice, mas desde o ano passado está com foco no varejo. Segundo ele, a expectativa de faturamento para 2016 é 19% maior que 2015, quando a receita da empresa totalizou R$ 7,1 milhões.

 

A empresa também vai investir em maquinário, com a compra de uma selecionadora de grãos a laser, que vai melhorar a qualidade do café produzido na fazenda Santa Monica, para a produção de grãos considerados perfeitos e sem impurezas. “As vendas de café não vêm sofrendo os efeitos da crise nacional. Nosso mercado de cafés especiais cresce devido aos novos hábitos de consumo, como o de cápsulas, que mantém o mercado ascendente”, diz Moscofian. A produção também deve crescer. Em 2015, a Fazenda Santa Monica produziu oito mil sacas de café e a previsão para este é ano é alcançar entre 8,5 e nove mil sacas.

 

Além da projeção positiva para o mercado interno, a expectativa também é boa em relação às exportações. No ano passado, a marca inaugurou um escritório em Miami, nos Estados Unidos, um dos principais destinos internacionais do café Santa Monica. “A demanda nos Estados Unidos está grande, o público está cada vez mais interessado no café certificado”, conta o diretor. Neste mês, serão embarcadas 30 mil cápsulas de café orgânico para os norte-americanos. Porém, a demanda alta e o dólar em patamares atrativos para a exportação não fez a marca mudar o foco principal, que é no consumo doméstico. “Nós acabamos exportando o excedente, mas nossa missão foi sempre fazer um café especial para o brasileiro e não vamos abrir mão disso mesmo que o dólar continue subindo”, afirma Moscofian.

 

A Baggio Café, produtora e exportadora de café gourmet com sede em Araras (SP), é outro exemplo de empresa que está otimista e pretende prosperar neste ano. “Tivemos uma ligeira queda no faturamento de 2015 comparando com os números de 2014, mas nossa expectativa para 2016 é aumentar em 50%, por conta das cápsulas e das exportações”, diz Liana Baggio, fundadora da empresa. Para ela, as vendas de café não devem desacelerar e a Baggio Café ainda prepara dois lançamentos para este ano, de novas cápsulas aromatizadas e uma opção de café gelado. “Iniciamos nosso investimento nas cápsulas com o objetivo de conhecer melhor esse mercado e trabalhar no aperfeiçoamento do produto e nas adaptações necessárias. Hoje, nossas vendas aumentam a cada mês.”

 

Não há crise para quem consome café

O avanço dos preços é ruim para o consumidor, mas não há crise que faça o brasileiro abrir mão do cafezinho. De acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), o Brasil deve manter ou aumentar o consumo em 2016. No máximo, a crise fará com que o consumidor escolha marcas de café mais baratas. Na comparação com 2014, o consumo interno teve um crescimento modesto de 0,86%, de 20.333 milhões de sacas de café para 20.508 milhões de sacas em 2015. De acordo com a Abic, espera-se que o consumo seja de 21 milhões de sacas em 2016. Em valor, o setor deve se beneficiar das vendas de cápsulas de café, que custam mais caro. A projeção da Abic é de um crescimento de 7,7% nas vendas para o consumidor, movimentando R$ 17,78 bilhões em 2016. “Certamente as cápsulas vieram para ficar. Elas são perfeitas, pois além de produzir um excelente café na xícara, são rápidas, práticas e não geram desperdícios”, diz Liana.

 

Segundo pesquisa realizada pela consultoria Mintel, o número de cafeterias gourmet deve aumentar 70% no Brasil até 2018, totalizando cerca de 11.146 unidades. O brasileiro que consome café fora de casa busca um produto de qualidade, variações da bebida e está disposto a pagar mais por isso.“Acredito que sempre há espaços para  novas cafeterias  que ofereçam qualidade e criatividade”, afirma Liana. “Mesmo em um ano de economia fraca, conseguimos provar que mercados promissores sobrevivem e, melhor do que isso, crescem.”

 

A produção agrícola

De acordo com informações do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP, os produtores estão animados também com o possível aumento do volume e da qualidade dos grãos na safra 2016/2017, que deve começar a ser colhida no início de maio. Na safra passada, o Brasil produziu 43,24 milhões de sacas de café. Para este ano, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) prevê um acréscimo que pode chegar 20,1%. A colheita brasileira pode chegar a 51,94 milhões de sacas de 60 quilos.

 

* Os valores dos produtos foram consultados no site do supermercado Extra no dia 06/04/2016.

 

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