DATA: 31/01/2016

Avanço da fibra sintética preocupa cotonicultores

Entenda o cenário de recuo de 4% da produção de algodão em caroço na safra 2015/2016 e a alta dos preços Guilherme Moraes

A valorização do dólar e o forte movimento de alta nos preços domésticos da pluma não foram capazes de estimular um avanço no cultivo do algodão. A safra 2015/2016 é marcada pelo recuo na área plantada, que perdeu espaço para o plantio da soja, e redução da produção. Porém, essas estimativas não tiram o sono do cotonicultor. O que aflige os produtores são os tecidos sintéticos, entre eles o poliéster, elastano e lycra. Eles são um velho concorrente, que há anos vem roubando mercados cativos do algodão brasileiro.

 

“Hoje, o crescimento dos produtos sintéticos é nossa grande preocupação, tanto pela alta tecnologia utilizada quanto pelo baixo preço”, diz João Carlos Jacobsen Rodrigues, presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão. Nesta temporada, o setor promete reagir com mais força contra os sintéticos. Segundo Jacobsen, a Abrapa se prepara para lançar uma campanha de marketing para estimular o uso da fibra natural com o intuito de recuperar consumidores, especialmente aqueles do segmento de roupas esportivas.

 

A disputa com os sintéticos é uma questão tão séria que, segundo pesquisas da Abrapa, atualmente, apenas 20% da produção têxtil brasileira tem como matéria-prima o algodão. Para mudar esse quadro, a campanha da Abrapa vai se basear em dados estratégicos, obtidos a partir de uma pesquisa qualitativa que ouviu consumidores brasileiros. Entre os resultados, a pesquisa revelou que o algodão possui grande aceitação no setor de cama, mesa e banho e entre os homens com mais de 40 anos, mas pouca relevância entre mulheres e jovens.

 

Outra questão para se preocupar é o movimento de queda nos preços petróleo, cujo barril chegou a ser vendido por menos de US$ 30 neste mês, o menor valor desde setembro de 2003. Já que os tecidos sintéticos são derivados petróleo, eles ficam ainda mais competitivos. A campanha da Abrapa virá em boa hora, podendo conter um avanço ainda maior desses produtos. “Nossa ideia é reverter um pouco essa tendência de avanço dos sintéticos, sobretudo nas modas feminina e esportiva”, diz Jacobsen.

 

A competição com os produtos sintéticos não é restrita ao território nacional e já deu sinais de que também pode comprometer as exportações brasileiras. Nos últimos cinco anos, o Brasil assumiu um importante papel no fornecimento de algodão aos países asiáticos. Em 2014, segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), 67% dos embarques de algodão brasileiro tiveram como destino final a Indonésia, Coreia do Sul, China e Taiwan. A própria entidade, porém, alerta que “causa apreensão o fato de que o aumento do consumo de fibra sintética nesses países se apresenta em uma trajetória sem volta”.

 

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Aurélio Pavinato, diretor-presidente da SLC Agrícola

O desafio de incrementar a qualidade da pluma

A competição com os sintéticos, na opinião de Aurélio Pavinato, diretor-presidente da SLC Agrícola, uma das maiores empresas produtoras de grãos do Brasil, obriga os produtores a investir constantemente em qualidade. “Felizmente, o Brasil tem uma condição ambiental muito favorável em termos de produtividade. Hoje, produzimos com um preço por libra menor do que nos Estados Unidos, na China ou na Índia, por exemplo.” Segundo ele, o preço varia US$ 0,60 a US$ 0,70 nos EUA, enquanto a libra do algodão brasileiro custa de US$ 0,50 a US$ 0,60 pra ser produzida.

 

Embora haja um consenso de que a qualidade da pluma brasileira aumentou nas últimas safras, ainda há críticas, como a falta de uniformidade no produto nacional, que apresenta diferenças de acordo com a região produtora, especialmente no quesito comprimento de fibra. “Hoje, nosso desafio é enorme: melhorar a qualidade e reduzir os custos ao mesmo tempo”, afirma João Carlos Jacobsen.

 

Revisão dos custos de produção

A valorização do dólar traz uma maior remuneração para os exportadores. Por outro lado, os insumos – em sua maioria produtos importados – punem os cotonicultores com a elevação dos custos de produção. “Aumentar a competitividade do nosso produto implica necessariamente em baratear a produção, revisando preços das tecnologias e insumos disponíveis no mercado”, diz Jacobsen. “Está muito claro que, com os valores atuais, fica muito difícil melhorar significativamente a nossa produtividade.”

 

Até o momento, assim como o que ocorre com a atual safra de soja, para o algodão, a temporada 2015/2016 é considerada uma das mais caras da história da cotonicultura brasileira. Além disso, a cadeia do algodão é complexa e tradicionalmente exige um investimento maior. “Pelo menos 60% dos custos do cotonicultor estão atrelados ao dólar, entre fertilizantes, defensivos e sementes”, afirma Vicente Levy, gestor comercial da Cantagalo General Grains. “Esse é um dos motivos para que o custo de produção do algodão seja bem maior que os das outras commodities. Com a soja, por exemplo, este custo é de R$ 1.200 por hectare, enquanto para o algodão é de R$ 5.000 por hectare.”

 

A cotonicultura brasileira encolhe

A estimativa da Conab é que a produção seja de 3,75 milhões de toneladas de algodão em caroço na safra 2015/2016, queda de 4% em relação as 3,91 milhões de toneladas de algodão em caroço produzidas na safra anterior. A produtividade, na previsão da Conab, deve sofrer recuo de 267,86 para 267,12 arrobas por hectare.

 

Celestino Zanella, presidente da Abapa

Celestino Zanella, presidente da Abapa

Em boa parte, o resultado se deve à redução de 11,8% da área plantada na Bahia, segundo maior estado produtor de algodão no Brasil. Segundo Celestino Zanella, presidente da Associação Baiana dos Produtores de Algodão, a expectativa é que a produtividade compense a redução. “Se o clima ajudar, chegaremos a 248 mil hectares de área plantada. Esperamos uma produtividade acima de 270 arrobas por hectare.”

 

A Vanguarda Agro foi uma das grandes produtoras que deixaram de plantar algodão na Bahia nesta safra. Segundo o CEO Arlindo Moura, a decisão foi motivada pelas condições climáticas. “Este é um verão com El Niño, que tipicamente prejudica o plantio no nordeste. Além disso, optamos por fazer, nesta safra, a rotação de culturas e plantamos soja e milho no estado”,

 

No Mato Grosso, o principal produtor do País, a previsão é de um crescimento de 4% da área plantada. Porém, a forte estiagem que prejudicou a primeira safra de soja está provocando atraso no plantio da segunda safra de algodão. As condições climáticas mudaram e, ironicamente, agora são as chuvas em excesso que atrapalham o plantio da pluma.

 

Com a promessa de uma menor oferta de algodão nesta temporada, as cotações da pluma registraram fortes altas no mercado nacional. O indicador CEPEA/ESALQ, com pagamento em oito dias e referente à pluma 41-4, acumula um aumento de 17,06% do início do mês até quinta-feira (28/01), fechando a R$ 2,6232 por libra/peso – esse é o maior valor desde novembro de 2010.

 

* Atualização em 05/02. Ao invés de US$ 1.200 e US$ 5.000, os custos de produção por hectare de soja e algodão são respectivamente R$ 1.200 e R$ 5.000.

 


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