DATA: 16/11/2015

“Operação Arca de Noé” luta para salvar peixes do Rio Doce

Por meio de mobilização nas redes sociais, pescadores e biólogos criaram ação de resgate para espécies aquáticas Darlene Santiago
1611_rio_doce_3

Pescadores resgatam peixes no Rio Doce

Após a tragédia causada pelo rompimento de duas barragens da mineradora Samarco, em Mariana (MG), a lama com rejeitos de minério de ferro já comprometeu mais de 300 quilômetros do Rio Doce e segue se espalhando. Para tentar minimizar o impacto ambiental, pescadores e outros profissionais voluntários criaram a “Operação Arca de Noé”, com o objetivo de transferir os peixes do rio contaminado para lagoas da região. Desde sexta-feira, dia 13 de novembro, eles lutam contra o tempo para resgatar peixes do Rio Doce antes que a lama chegue aos municípios do Espírito Santo.

 

“Estamos tentando salvar a vida aquática do Rio Doce capixaba”, diz Abrahão Alexandre Alden Elesbon, Doutor em Engenharia Agrícola e professor do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes), no campus de Colatina, um dos voluntários que organizam a operação. “Existem espécies que são nativas do Rio Doce. Se a lama dizimar essa população e não tivermos um banco genético, vamos perder essas espécies para sempre.”

 

Segundo o professor, houve um grande envolvimento da população de Colatina (ES) na ação. “Resgatamos mais de 50 mil peixes”, conta ele. Após o início do trabalho, o grupo de voluntários passou a receber suporte do Ministério Público Federal, do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Doce. A mineradora Samarco também se envolveu na operação, oferecendo caminhões e caixas d’água para o transporte dos animais.

 

Onde ajudar

O trabalho está sendo desenvolvido em três municípios capixabas. Na cidade de Colatina, as espécies de peixes, moluscos e crustáceos capturadas no Rio Doce são encaminhadas para o Ifes. Em Linhares, as espécies estão sendo recebidas e identificadas na Fazenda Experimental do Incaper. Já em Regência, o trabalho de resgate tem como destino a Reserva Ecológica de Comboios.

 

“Qualquer um pode ajudar, pode ser pescador, biólogo, a população capixaba em geral”, diz Elesbon. Segundo o professor, nesta segunda-feira (16/11), o principal ponto de encontro dos voluntários está localizado entre as cidades de Colatina e Linhares, próximo ao trevo de Marilândia. A operação de resgate dos peixes ocorreu também na região de Baixo Guandu, porém, com a chegada da lama, teve de ser interrompida.

 

1611_rio_doce_5

Lama da tragédia de Samarco dizima peixes

O rio morreu

Por conter ferro, entre outras substâncias, a lama que invadiu o Rio Doce reduz os níveis de oxigênio da água. Com isso, os peixes não conseguem respirar e morrem. “O rio está todo lameado. O volume de lama é inimaginável”, diz José Francisco Silva de Abreu, presidente Associação de Pescadores e Amigos do Rio Doce (Apard). “A avaliação científica é de que todos os peixes morreram. O prejuízo é quase total.”

 

O “tsunami de lama” continua contaminando o rio, com uma rota que vai atingir cidades capixabas até desembocar no mar, após o município de Linhares (ES). “O rio morreu, mas as nossas esperanças não morreram”, diz Abreu. “Vamos trabalhar para que a vida no rio renasça.”

 

Agora, a grande preocupação é com os afluentes do Rio Doce, como por exemplo o rio Santo Antônio, o Corrente Grande, o rio Manhuaçu e dezenas de córregos. “Muitos peixes conseguiram fugir para os afluentes, então precisamos preservá-los com toda a garra”, afirma Abreu. “Pedimos a todos que não pesquem nos afluentes, para que o Rio Doce possa ser repovoado no futuro.” Segundo o presidente, a Apard vai revindicar uma medida oficial que proíba a pesca em toda a bacia do Rio Doce.

 

A alternativa para os pescadores

Além do grande impacto ambiental, a tragédia gera prejuízos econômicos. Segundo o presidente da Apard, com a contaminação do Rio Doce, cerca de 300 pescadores perderam a sua fonte de renda. “É urgente buscar alternativas para esses pescadores”, afirma. “A solução é transformar esse pessoal em piscicultor.”

 

Segundo Abreu, a Apard vai implantar um projeto de piscicultura social, para capacitar esses pescadores. “Precisamos de vontade política, assistência técnica e um projeto completo para transformar a região”, afirma. Abreu calcula que seria necessário um investimento de cerca de R$ 9 milhões para dar suporte aos 300 pescadores.

 


Comente essa notícia.

Faça seu cadastro ou login gratuito para enviar comentários.