Frigorífico de jacaré
DATA: 11/09/2017

Abate de jacarés para oferta de couro e carne deve avançar no Brasil

O quilo de filé chega a custar R$ 70 e o couro do animal conquista a atenção do mercado internacional Tainá Nunes*

Restaurantes sofisticados sempre buscam inovar em seus cardápios. Além de oferecer cortes de carnes nobres de bovinos, chefs renomados buscam surpreender os consumidores com carnes exóticas, como paca, rã e faisão. A carne de jacaré é também uma das grandes promessas para esse nicho de mercado e anima produtores. “É um mercado sem concorrentes. Tem uma proteína muito nobre, e qualidades nutricionais únicas”, afirma Weber Girardi, gerente operacional da Caimasul, empresa que cria jacarés em cativeiro para fins comerciais em Corumbá, no Mato Grosso do Sul.

 

A iguaria, que chega a custar R$ 70,00 por quilo, está se popularizando na mesa dos brasileiros. Todas as partes do animal criado em cativeiro podem ser aproveitadas para consumo. Também há espaço para o comércio do couro do jacaré, que é requisitado principalmente pelo mercado internacional. Isso faz com que cada vez mais produtores se interessem pela criação desses animais. “O mercado tem um crescimento muito grande e está à espera de produtos”, diz Girardi.

 

Investimento na prática

Apenas as espécies Caiman Latirostris, Caiman Yacare, Caiman crocodilus e Melanosuchus Niguer de jacarés estão aptas para criação comercial. Essas espécies podem ser criadas com sistema de reprodução em cativeiro ou a partir da coleta de ovos ou filhotes na natureza e recria dos animais jovens em cativeiro.

 

No caso da Caimasul, a espécie criada é a Caiman Yacare, mais conhecida como Jacaré do Pantanal. O projeto de criação de jacarés teve início em julho de 2013, sendo que a primeira coleta de ovos para incubação ocorreu em 2014. Desde então, a empresa aplicou R$ 25 milhões no negócio.

 

Girardi conta quais são os fatores determinantes para o sucesso da criação. “Manejo e apartação de acordo com o tamanho dos animais, além de uma equipe muito dedicada para manter os bichos sem estresse e seguir a mesma rotina para que os animais se acostumem”, afirma. A separação dos jacarés ocorre mensalmente para manter a homogeneização entre tamanhos e melhorar o ganho de peso.

 

Criação

Além dos cuidados com o manejo, o investimento na estrutura faz toda a diferença na criação. O complexo da Caimasul possui uma área de 150 hectares no total, dos quais os recintos de criação e engorda ocupam aproximadamente 6 hectares para abrigar 79 mil animais. Os 144 hectares restantes são ocupados com a fábrica de ração para os jacarés, frigorífico, estação de tratamento de efluentes e lojas próprias para venda da carne e couro.

 

Na Caimasul, os animais são criados em tanques de concreto, que contam com limpeza e troca de água diária, além de alimentação fornecida em dias intercalados. Os tanques possuem uma área seca no centro para a oferta de ração e o banho de sol dos animais. A alimentação é composta por miúdos de carne bovina fresca que é processada diariamente na fábrica, misturada a farinhas e aditivos.

 

A Caimasul investe em duas técnicas para a criação dos animais. A primeira é a coleta de ovos na natureza, em áreas pré-determinadas por órgãos ambientais. Também é feita a criação sob sistema de ciclo fechado, na qual é utilizada reprodutores da propriedade. “Quando o animal está em cativeiro, com 3 a 4 anos eu consigo formar uma matriz pronta para a reprodução. Esse animal em cativeiro atinge uma maturidade sexual mais rápido. Na natureza, costuma demorar de 12 a 15 anos”, conta Girardi.

 

A empresa cria jacarés em escala comercial adotando tecnologias para garantir o conforto térmico dos animais e também investe em alimentação balanceada para cada ciclo de crescimento. Os animais ficam nos recintos de criação/engorda até a fase final da criação. “O abate ocorre com até 2 anos, que é quando o animal atinge o ponto ideal para a exploração do couro. Ele será abatido com 10 quilos, com aproximadamente 1,20 metro”, conta Girardi.

 

Início dos abates

A Caimasul possui frigorífico habilitado pelo Ministério da Agricultura para abater os jacarés, com capacidade instalada para o abate de 600 animais por dia. A empresa vai iniciar os abates no dia 21 de setembro. “Já temos em torno de 30 mil animais prontos para o abate.”

 

Inicialmente, a previsão é produzir 6 toneladas de carne de jacaré por mês, com aumento gradativo até atingir a meta de trinta toneladas de carne mensais. Embora a empresa ainda não tenha começado a vender a carne de jacaré, a empresa está preparada para estrear no mercado e as perspectivas são muito positivas. “Desde 2015, estamos apresentando o projeto [para o mercado] e a receptividade para essa carne é muito boa. Já temos uma demanda bastante significativa, são cerca de 60 clientes aguardando o início dos abates”, diz Girardi. “Já adquirimos um caminhão refrigerado para atender aos clientes mais próximos e também restaurantes no estado de São Paulo.”

 

Girardi afirma que a criação de jacarés é um negócio que pode atrair produtores de diferentes perfis. “Do pequeno ao grande [produtor], o mais importante é ter um frigorífico para que a carne possa ser processada, aí todos podem fornecer o animal para o abate”, afirma Girardi.

 

Outro exemplo de sucesso na criação de jacarés é o trabalho da Cooperativa de Criadores de Jacaré do Pantanal (Coocrijapan), que tem a permissão para criar os jacarés da espécie Caiman Yacare. A Cooperativa possui área de criação com sete galpões cobertos, 26 baias redondas e duas áreas com recinto aberto com foco no bem estar animal.

 

Além disso, existe uma sala de processamento de alimento dos animais e um frigorífico com capacidade de abate de 300 animais por dia. Ivan Polisel, gerente administrativo da Coocrijapan, afirma que o mercado voltado para a carne de jacaré está crescendo tanto no Brasil como internacionalmente. “Exportamos couro para México, Itália, e a carne vendemos no mercado interno”, afirma.

 

Avanço do mercado consumidor

Embora tenha muito potencial para crescer, a carne de jacaré ainda precisa ser desmistificada. O gerente também afirma que a maior dificuldade no comércio dessa carne é a falta de conhecimento na hora do preparo. “Todos ainda imaginam que é uma carne de caça e deve ser aferventada. É uma carne muito leve e deve ser preparada grelhada e com pouco tempero para não perder a essência”, diz Girardi. “Em todos os cortes, a carne de jacaré só tem 0,3% de gordura.”

 

Regulamentação

Para que o produtor seja autorizado a possuir um criatório e frigorífico de jacaré é necessário seguir algumas regras. Entre elas, é necessário ter documentos de regularidade, autorização de uso e manejo, alvará sanitário, certificado de registro do Ibama, certificado de Serviço de Inspeção Federal do Ministério da Agricultura (Mapa), entre outros.

 

* Tainá Nunes é trainee de jornalismo, com supervisão de Darlene Santiago.

Cadastre-se para receber notícias gratuitamente da Farming Brasil por e-mail: sfagro.com.br/cadastro

Qual é a sua dúvida agronômica? Para pedir uma reportagem ao site SF Agro, clique aqui e envie uma mensagem para a equipe de jornalistas.

 


Comente essa notícia.

Faça seu cadastro ou login gratuito para enviar comentários.

Leia mais