DATA: 01/10/2015

A safra de soja 2015/2016 será a mais cara da história

Dólar valorizado favorece o cultivo da oleaginosa, mas os produtores estão cautelosos por causa da instabilidade econômica e dos custos de produção crescentes Darlene Santiago

Em setembro, os produtores brasileiros iniciaram o plantio da soja para a safra 2015/2016 em meio um cenário de muitas incertezas. Uma delas é a forte oscilação cambial. No dia 24 de setembro, o dólar chegou a valer R$ 4,24. O real desvalorizado sustenta os preços domésticos da soja e compensa a queda do preço na bolsa internacional. Porém, a notícia não deixa os produtores animados. Por causa do câmbio, os custos de produção estão aumentando significativamente.

 

“Num primeiro momento, a valorização do dólar foi positiva. Porém, agora, toda essa volatilidade assusta e preocupa”, diz Arlindo Moura, CEO da Vanguarda Agro, uma das maiores produtoras de grãos do Brasil. “Observamos que há um descasamento entre o custo de produção e a receita. A única saída é fazer um bom gerenciamento das operações para diluir os riscos.”

 

A Vanguarda Agro produz soja, milho, algodão e girassol em fazendas localizadas nos Estados do Mato Grosso, Bahia e Piauí, que somam mais de 250 mil hectares. Na safra 2014/2015, a empresa cultivou 151,4 mil hectares com soja e colheu 462 mil toneladas da oleaginosa. Para a safra 2015/2016, cujo plantio teve início no dia 25 de setembro, a empresa pretende reduzir em 10% a área plantada. “Estamos num momento de crise econômica e é preciso ser cauteloso”, diz Moura. “Vamos reduzir área plantada, mas a nossa produção de soja deve se manter estável porque esperamos um aumento de produtividade.”

 

Há três fatores que os produtores brasileiros estão analisando para planejar a safra 2015/2016: a redução dos preços da soja na bolsa de Chicago, a desvalorização cambial e o aumento de custos. Segundo Moura, a Vanguarda Agro já fechou contratos antecipados para vender 40% da soja da safra 2015/2016, a um preço médio de US$ 10,53 por bushel. “Estamos comercializando desde outubro do ano passado e acredito que conseguimos um bom preço para a soja.”

 

Mesmo assim, Moura estima que o valor da venda na fazenda, incluindo o frete, será menor do que na temporada anterior. A estimativa é de uma média de US$ 17 por saca, enquanto que, na safra 2014/2015, a Vanguarda Agro vendeu soja por uma média de US$ 19,50 por saca, incluindo o valor do frete. Embora a desvalorização da moeda nacional compense o recuo no preço, o lucro será menor. “A alta do dólar nos dá um pequeno saldo positivo, mas não é motivo para comemorar. Teremos margens complicadas. Em média, o custo total de produção deve crescer 20%”, diz Moura.

 

Insumos mais caros

 

Cerca de 50% das despesas da lavoura são com a compra de fertilizantes e de defensivos, produtos importados cujos preços são influenciados pelo valor do dólar. Por esse motivo, o custo de produção não para de crescer. “Não há a euforia que observamos nas safras anteriores”, diz Lucilio Alves, pesquisador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada – Cepea). “Se o câmbio não estivesse nesse patamar, o agronegócio não estaria crescendo. Estaríamos numa situação crítica, com margens negativas.”

 

No Mato Grosso, o maior Estado produtor de soja no Brasil, estima-se um custo médio de R$ R$ 2.920,90 por hectare na safra 2015/2016, ante uma média de R$ R$ 2.468,39 por hectare na safra 2014/2015. Esse cálculo foi feito pelo Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária – Imea), no levantamento publicado no dia 28 de setembro.

 

“Essa será a safra de soja mais cara da história”, diz Endrigo Dalcin, vice-presidente da Aprosoja Mato Grosso (Associação Brasileira dos Produtores de Soja de Mato Grosso). Segundo Dalcin, a safra 2014/2015 foi planejada com um custo atrelado a um dólar de R$ 2,30 e vendida a um câmbio mais favorável. Agora, o custo é calculado com um dólar está acima de R$ 3 e o futuro é incerto. “Está complicado planejar a safra porque os custos oscilam toda semana”, diz. Só em Mato Grosso, principal estado produtor do grão, a estimativa é de um incremento na ordem de R$ 1 bilhão nos gastos com a lavoura. Com isso, segundo Dalcin, o agricultor vai fazer de tudo para conter as despesas. “Com certeza, o produtor vai investir menos em tecnologia”, diz o vice-presidente. “Ele vai economizar principalmente na aplicação de fertilizantes e, consequentemente, vai colher menos.”

 

Outro agravante é que os produtores não conseguiram comprar insumos com antecedência por causa de um problema político. O Plano Agrícola e Pecuário 2015/2016, programa lançado pelo governo brasileiro que determinou a oferta de R$ 187,7 bilhões para as políticas públicas do agronegócio, teve lançamento tardio e apresentou mudanças. Foram criadas novas exigências para a contratação de financiamentos e com taxas de juros mais altas. “O crédito está mais caro e houve um atraso na liberação dos financiamentos, então inevitavelmente os sojicultores também atrasaram a compra de insumos”, afirma Dalcin. “Além disso, muitos produtores negociaram a compra dos insumos em dólar e agora tiveram uma surpresa desagradável, porque os recursos não são suficientes para pagar a dívida.”

 

Além das incertezas econômicas, há ainda a questão climática. Não se sabe como a incidência do fenômeno El Niño vai impactar a produção. “O plantio de soja já está atrasado por falta de chuvas”, afirma Dalcin. Segundo ele, as previsões indicam um menor volume de chuvas em outubro, irregularidade de chuvas no mês de novembro e possibilidade de veranico em janeiro. “Se tudo isso se confirmar, teremos uma produção menor.”

 

Crescimento da área plantada

 

Mesmo com tantos desafios, estima-se um aumento da área plantada com soja. No Mato Grosso, o maior Estado produtor do grão no Brasil, a área plantada deverá ser de 9,2 milhões de hectares, um aumento de 2,06% ou 185 mil hectares em relação à safra 2014/15, segundo o Imea. No entanto, embora o percentual seja positivo, o número representa o menor avanço de área desde a safra 2009/2010. Segundo Dalcin, esse crescimento da sojicultura no Estado se deve apenas à abertura de novas áreas. “É algo que foi planejado com antecedência. São áreas de pastagens degradadas que estão sendo convertidas para a produção de soja”, afirma.

 

No segundo maior Estado produtor de soja, o Paraná, a área dedicada à soja pode crescer 2% para 5,2 milhões de hectares, de acordo com a primeira estimativa de safra da Secretaria Estadual de Agricultura e Abastecimento (Secretaria Estadual de Agricultura e Abastecimento – Seab). Lucilio Alves, pesquisador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada – Cepea), acredita que a área plantada só vai crescer em caso de substituição do cultivo de milho 1° safra pela oleaginosa.

 

“Temos preços muito melhores para o milho neste ano por causa da valorização do dólar, mas o custo de produção também cresceu”, diz Alves. “O problema é que temos um excedente de produção e o milho vai perder espaço para a soja.” Segundo Alves, estima-se que, no fechamento da safra 2014/2015 de milho, haverá 14,7 milhões de toneladas de excedente de produção do cereal no Brasil. “Precisamos de bons volumes de exportação nos próximos meses para enxugar os estoques de milho.”

 


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