DATA: 04/02/2016

A colheita da soja acelera e produtores se mostram mais otimistas

Com expectativa de safra recorde, exportadores estão confiantes e o gargalo logístico terá alívio com o escoamento pelos portos do Norte Darlene Santiago

As preocupações com a seca, que prejudicou lavouras de soja em algumas regiões produtoras no Centro-Oeste e no Nordeste do Brasil, e com as chuvas excessivas na região Sul do País começam a ficar no passado. À medida que a colheita avança, os sojicultores se mostram mais otimistas. “Para nós, o clima neste ano está mais favorável do que na safra passada e, de acordo com as previsões, deve ficar dentro da normalidade nos próximos três meses”, diz Aurélio Pavinato, diretor presidente da SLC Agrícola, uma das maiores produtoras de grãos do Brasil.

 

Nesta safra, a empresa está cultivando 211 mil hectares de soja em fazendas nos Estados do Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Bahia e Piauí. A colheita, que foi de 650 mil toneladas de soja na safra passada, deverá crescer para 700 mil toneladas nesta temporada. A produtividade também deve avançar. “A nossa meta é 53 sacas por hectare”, diz Pavinato. A produtividade média da SLC Agrícola na safra 2014/2015 foi de 51 sacas por hectare.

 

O produtor Jorge Schuster cultiva 200 hectares com soja na fazenda Capão Bonito, em Primavera do Leste (Mato Grosso), e é vice-presidente do sindicato rural do município, que conta com 630 produtores associados. Segundo ele, agora os produtores estão mais confiantes. “As lavouras que tiveram o enchimento dos grãos em janeiro estão em boas condições, não vamos ter quebra de safra na região”, afirma. Em sua fazenda, Schuster espera uma safra melhor. Ele planeja começar a colheita no dia 20 de fevereiro e calcula uma produtividade de 65 sacas por hectare, muito superior as 55 sacas por hectare que ele colheu na safra anterior.

 

Colheita

No Estado do Mato Grosso, que responde por mais de 25% da produção nacional, o tempo colaborou nas últimas semanas e os produtores aceleraram os trabalhos de campo. Até o dia 5 de fevereiro, a colheita atingiu 14,4% da área total cultivada com soja, estimada em 9,1 milhões de hectares. Em comparação com a temporada 2014/2015, o atraso da colheita é de apenas 2,4 pontos percentuais. De acordo com o Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (Imea), estima-se que a produtividade média no Mato Grosso deva recuar de 51,91 sacas por hectare, na safra 2014/2015, para 50,37 sacas por hectare nesta temporada.

 

No Estado do Paraná, que ocupa o segundo lugar na produção de soja, a colheita está bem adiantada. De acordo com o Departamento de Economia Rural do Paraná (Deral), a área colhida até atingiu 17%, contra 12% colhidas no mesmo período da safra anterior. O Rio Grande do Sul, o terceiro maior Estado produtor de soja, registrou excesso de chuvas no ano passado e seca em janeiro que prejudicaram lavouras, o que deve provocar um recuo de produtividade. Já nas regiões Norte e Nordeste do Brasil, onde a janela de cultivo da soja é mais tardia, as lavouras são beneficiadas por melhores condições climáticas, com chuvas registradas em janeiro deste ano.

 

Recorde de produção

O cenário que começa a se materializar mostra que o Brasil deverá conquistar, de fato, mais um recorde na produção de soja. De acordo com o quinto levantamento da safra de grãos da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), divulgado no dia 4 de fevereiro, estima-se uma produção de 100,93 milhões de toneladas da oleaginosa na safra 2015/2016, o que representa um crescimento de 4,9% em relação as 96,22 milhões de toneladas colhidas na temporada anterior.

 

Segundo a Conab, a perspectiva para a safra é de recorde, marcada pelo crescimento de 3,6% da área plantada, que totaliza 33,23 milhões de hectares cultivados com soja. “Apesar de problemas pontuais, como atraso de plantio, a estimativa é de crescimento na produção e na produtividade”, diz a Conab em comunicado.

 

Condições das lavouras

A Associação dos Produtores de Soja do Mato Grosso promoveu uma rodada técnica para avaliar as condições das lavouras, entre os dias 25 e 30 de janeiro, quando o diretor técnico Luiz Nery Ribas percorreu cerca de dois mil quilômetros nas regiões Oeste e Norte do Estado. “A estiagem prejudicou a soja, muitos produtores não conseguiram plantar na hora certa”, diz o diretor. “Mas, observamos que agora as lavouras estão ficando prontas para a colheita e, de forma geral, estão dentro da normalidade”, afirma.

 

Luiz Nery Ribas, diretor técnico da Aprosoja-MT

Luiz Nery Ribas, diretor técnico da Aprosoja-MT

A atenção do produtor deve ser redobrada para o controle de pragas e doenças, já que a umidade favorece a ocorrência de fungos. Segundo Nery Ribas, a equipe técnica verificou muitos casos de mancha alvo, mancha aureolada, crestamento bacteriano e a presença da mosca branca chamou a atenção dos pesquisadores. “O risco agora é de doenças que podem reduzir a produtividade”, afirma Nery Ribas. “Isso requer muita atenção e monitoramento.”

 

No Paraná, a atual safra de soja é marcada por chuvas acima da média e pouca luz. “O excesso de chuvas está comprometendo um pouco a qualidade da safra. As plantas se desenvolveram com uma raiz mais superficial, o clima atrapalhou a aplicação de defensivos e tivemos muitos focos de ferrugem asiática”, diz o economista Marcelo Garrido, do Departamento de Economia Rural do Paraná (Deral). “Mas, de um modo geral, é considerada uma safra boa”, diz.

 

Até agora, a estimativa para o Paraná é de uma produtividade média de 57 sacas por hectare, enquanto na safra 2014/2015 a produtividade média foi de 55,3 sacas por hectare. A avaliação da safra indica que 83% das lavouras são consideradas boas, 15% são medianas e apenas 2% das lavouras são consideradas ruins.

 

Outro dado que chama a atenção é que os produtores paranaenses aceleraram a venda do grão. Segundo Garrido, 34% da safra 2015/2016 paranaense já foi comercializada, enquanto no ano passado a comercialização chegava a 12% da produção neste período. “O produto soja ficou muito atrativo com o real desvalorizado. Houve uma procura maior dos compradores, o produtor não perdeu a oportunidade e soube escalonar a venda”, diz Garrido.

 

Logística

O maior gargalo da agricultura brasileira continua sendo a logística. Porém, o desenvolvimento de portos localizados nas regiões Norte e Nordeste está facilitando cada vez mais o escoamento dos grãos. De acordo com dados do Ministério da Agricultura, o escoamento de grãos pelos portos do “Arco Norte” tiveram um crescimento de quase 54% em 2015. As exportações de soja e milho pelos portos de Itacoatiara (Amazonas), Santarém e Vila do Conde (Pará), Itaqui (Maranhão) e Salvador (Bahia) saltaram de 13 milhões de toneladas para 20 milhões de toneladas no ano passado, em comparação com 2014. “O corredor Norte trouxe um benefício muito grande e hoje a logística está mais eficiente”, diz Pavinato, diretor presidente da SCL Agrícola.

 

Com colheita recorde e a valorização do dólar perante o real, os exportadores estão otimistas, de acordo com Sérgio Mendes, diretor geral da Associação Nacional de Exportadores de Cereais (Anec). “As previsões são boas para a soja e o milho. A gente não vê razão para não ter um bom ano”, afirma Mendes. Segundo ele, a entidade estima a exportação de 57 milhões de toneladas de soja neste ano, enquanto foram embarcadas cerca de 53 milhões de toneladas na temporada anterior. “Os portos de Santos e Paranaguá são eficientes, mas estão muito próximos do limite da capacidade de operação”, diz ele. “O adicional da safra será escoado pelos portos do Norte.”

 

O que preocupa são as condições das estradas, o preço do frete e possíveis congestionamentos nos portos durante o pico da colheita. “Podemos ter percalços no caminho. Qualquer evento que possa acontecer, como uma greve de caminhoneiros, pode atrapalhar as exportações”, afirma Mendes. “A gente enfrenta desafios todo ano.”

 


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